domingo, 14 de junho de 2026

A DEUSA VOLÚPIA - PARTE 1

Eros é o ânimus de Psiquê. Eros é o ânimus saudável de nossa psique. Psiquê tem como sogra Afrodite, a Deusa que nasceu a partir da castração de Urano, sendo a sua contraparte feminina curada. Caindo os testículos de Urano no mar, que simboliza nosso inconsciente, nasce Afrodite, sendo trazida sobre uma concha de vieira como se fosse uma pérola, produto da resiliência após a maturação e sofrimento, castrações causadas pelo tempo (Cronos), tempo esse capaz de devorar seus próprios filhos, projetos, expectativas. Afrodite surge como cura. E é Afrodite quem auxilia Psiquê no seu equilíbrio, embora pareça ser uma sogra muito ciumenta e impondo várias tarefas à nora, como nos mostra Robert A. Johnson em 'She. A Chave do Entendimento da Psicologia Feminina". O fruto da união de Eros e Psiquê é a Deusa Volúpia. Volúpia, segundo o dicionário de mitologia Greco -Romana, é descrita como uma bela mulher e que tem como domínio justamente a volúpia, esta como satisfação dos sentidos a partir do equilíbrio psíquico. A volúpia cumpre um fim em si mesmo, assim como a beleza, que é a satisfação dos sentidos e bem-estar. Um bem-estar capaz de provocar gozos e orgasmos e ainda assim promover o equilíbrio existencial. É algo "inapropriável" pelo mercado. O erótico deve gerar pulsão de vida. Por isso, quando tratamos da ideia de Capital Erótico firmada pela socióloga Catherine Hakim, como forma de ascenção mercadológica, essa visão mercantil do erótico, do prazer e da volúpia, é uma distorção feita pelo neoliberalismo. Em 'Agonia de Eros' de Byung-Chu-Han, ele traz justamente, a partir da visão platônica sobre os compartimentos da alma, como a concupiscência da alma distorce o espírito de coragem e transformação da sociedade, mas antes de tudo, auxilia na manutenção do 'status quo' e mostra como atualmente o "thymos" evita "aborrecimentos": "O eros, que segundo Platão, dirige a alma, tem poder sobre todas as suas partes: cupidez (epithymia), coragem (thymos) e razão (logos). Cada uma das partes da alma possui sua própria experiência de prazer e interpreta o belo conforme seu modo próprio. Hoje parece que o que domina a experiência de prazer da alma é sobretudo a cupidez (epithymia). Por isso, as ações raramente são impulsionadas pelo thymos. Típico do thymos é, p. ex., a ira, que rompe radicalmente com o vigente e faz surgir um novo estado. Hoje ele evita aborrecimentos e insatisfações. Falta a essas a negatividade da ruptura. E assim permite-se a permanência do estado vigente. E, sem eros, decai também o logos num cálculo impulsionado por dados, que não podem contar com o acontecimento, com o ingovernável. Não se pode confundir o eros com a cupidez (epithymia). Este não está subordinado apenas à cupidez mas também ao thymos. Ele o impulsiona a produzir belas ações. O thymos é o lugar onde se tocam eros e política. Mas a política atual, que não está privada apenas de thymos mas também de eros, atrofia em mero trabalho. O neoliberalismo aciona uma despolitização geral da sociedade onde ele, não por último, substitui o eros por sexualidade e pornografia. Baseia-se na epithymia. Numa sociedade do cansaço, de sujeitos de desempenho isolados em si mesmos, começa a se atrofiar completamente também o thymos. Torna-se impossível um agir comum e universal, um nós." (pp.42-43) O político é erótico ou anti-erótico, porque é pulsão por vida canalizada ou desvirtuada. Não há espaço para a volúpia pura, na sua essência, numa sociedade marcada por superficialidades discursivas e narcisismos, porque a "mudança" é controlada ou induzida pelo neoliberalismo como vemos no capitalismo de vigilância. Numa próxima oportunidade falaremos de Frédéric Gros e a mudança a partir da ira/vergonha de outro ponto de vista do aqui exposto em Byung-Chu-Han, na obra de Gros "A Vergonha é um Sentimento Revolucionário". Voltaremos também a Byung-Chu-Han. Como o neoliberalismo é capaz de matar a volúpia, o erotismo, a espontaneidade, a alteridade, a força necessária da mudança? Como o narcisismo é anti-erótico e anti-volúpia? Como ele é capaz de gerar performance, mas pouca entrega? E como isso tudo também se relaciona à ideia de mulheridade branca burguesa? Laura Berquó

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