O Sul Global corresponde também à parte da divisão internacional do trabalho, que existe para sustentar os direitos sociais do Norte Global, conforme se depreende de Nicola Bullard e seguimos nesse diapasão. Como no Norte Global há maior organização de sindicatos e pressão por direitos sociais, os vínculos mais precários ficam para o Sul Global. E para manter essa condução, regimes militares são necessários muitas vezes, como se viu no auge da Guerra Fria, quando várias democracias na América Latina, por exemplo, tiveram ditaduras militares à frente até os anos 1980.
O Estado de Bem-Estar Social do Norte Global é às custas da espoliação do Sul Global. Pelo que percebo, os ODSs são parâmetros para toda a discussão atual sobre globalização, inclusive no que tange ao bem-estar e desenvolvimento humano, com enfoque no Sul Global. Não há como abordarmos a questão de inclusão x exclusão de grupos vulneráveis do Sul Global sem a análise dos ODSs, bem como dos ODMs para as ordens internas. Por serem objetivos não-vinculativos das ordens jurídicas, internas ou internacional, geram, na verdade, uma adesão de natureza moral global. Embora, o Sul Global seja uma região, não necessariamente geográfica, pois podem existir “Sul” no Norte Global, do ponto de vista econômico, político, social e de acesso às novas tecnologias de transporte e informação, a raiz da determinação desse espaço global está relacionado originariamente à divisão internacional do trabalho, no início dos 80, está relacionado ao sul geográfico, que serviu como outra forma de parâmetro para os níveis de desenvolvimento desses países, em sua maioria localizados no hemisfério sul, com o enfraquecimento da Guerra Fria e a velha divisão em países do Terceiro e Primeiro Mundo, países em desenvolvimento, desenvolvidos e subdesenvolvidos., segundo ainda Nicola Bullard.
Esses países do Sul Global herdaram toda a expropriação capitalista iniciada com o processo de colonização e com o patriarcado que vem acompanhado do racismo, a partir do início das Grandes Navegações e tráfico de pessoas do continente africano para fins de escravização. O patriarcado, aqui, entendo como expansão também das formas institucionais de poder que legitimaram o início do capitalismo e suas formas de acumulação, subjugando outros povos. O racismo foi a ‘tecnologia’ social utilizada, tanto no viés religioso como pelo viés étnico. O patriarcado, nesse caso, era representado pela Igreja Católica, que desde o século XV, por meio de suas Bulas, autorizava a escravização de povos, ainda que houvesse a desculpa do resgate. Conforme exponho no meu livro Questões Étnico-Jurídicas da Atualidade, a escravização de pessoas negras teria começado como justificativa para o “resgate” de prisioneiros dos mouros e sarracenos, senão vejamos:
“Segundo o jurista Perdigão Malheiros, ex-presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB na década de 1860, no volume 03 da sua obra “A Escravidão no Brasil. Estudo histórico-jurídico- social” de 1867, o tráfico de africanos escravizados para a península ibérica teria iniciado como forma de resgate de prisioneiros mantidos em cativeiros inimigos dos mouros e sarracenos, e por isso, justificavam os ibéricos como que estando prestando um grande serviço (1867:pp.1-2, volume 03). O resgate consistia em reduzir à escravidão alguém que por ventura tivesse sido vencido em guerra ou capturado por inimigos e mantido em cativeiro. Por isso, espanhóis e portugueses naturalizaram a escravização de negros da África Ocidental, em princípio, justificando pela fé cristã contra inimigos e reféns. Segundo ainda Perdigão Malheiros, não há conformidade entre as fontes, se teria sido Portugal ou Espanha o primeiro a introduzir pessoas negras escravizadas sob esse pretexto, mas é sabido, segundo ele, que os “mahometanos” também traziam pessoas negras escravizadas como moeda de troca para resgatar prisioneiros de origem islâmica.
Em 1442, Portugal já havia transformado o tráfico negreiro em um lucrativo comércio sob o comando do Infante Dom Henrique, trazidos pelo português Antônio Gonçalves (Malheiros, 1867, p.2), tendo no entanto, a Espanha iniciado o tráfico para as Américas, ainda no ano de 1500, mais precisamente de pessoas negras da região chamada de Guiné (Senegal, Gâmbia, Guiné e Guiné-Bissau).
No Papado de Nicolau V foram emitidas 02 bulas que legitimaram a escravização de africanos por portugueses, estivessem eles ou não em poder dos sarracenos. São as seguintes bulas: a ‘Dum Diversas’2 de 1452 e a ‘Romanus Pontifex’ de 1455.” (BERQUÓ: 2026)
Essa passagem sobre a origem da escravização por meio do tráfico transatlântico, marca o início do racismo, não do racismo científico que serviu para legitimar o imperialismo e o neocolonialismo do século XIX, mas o fim dos protorracismos e um nova divisão internacional do trabalho, dividindo civilizações pelo critério da religião e/ou cor/etnia. O racismo foi uma invenção para legitimar a divisão internacional do trabalho que sustentou o colonialismo. A Igreja Católica, nesse caso, enquanto instituição, representa o patriarcado. Como já visto em Boaventura de Sousa Santos (2020), os 03 "unicórnios" que andam interligados a partir do século XVI: colonialismo, capitalismo e patriarcado. No caso, o patriarcado dá sustentação à nova divisão internacional do trabalho necessária ao capitalismo nascente.
Como forma de legitimar a degradação de civilizações para servir à divisão internacional do trabalho que foi iniciada com o colonialismo/capitalismo do século XV-XVI, é preciso deslegitimar os conhecimentos desses povos subalternizados pela visão ocidentalocêntrica de matriz europeia e a forma mais rápida é a desumanização das crenças, conhecimentos, saberes, etc. Daí a necessidade, com a modernidade, de classificar o que é conhecimento científico e o que é conhecimento popular.
A desligitimação de certos saberes/conhecimentos leva à exclusão de grupos étnicos postos numa posição de subalternidade para justificarem e manterem a divisão internacional do trabalho. Demonizar formas de conhecimento, culturas e crenças, sendo o conhecimento de civilizações cristãs o único legítimo, desumaniza os demais integrantes de civilizações consideradas “racionalmente fracos e não plenamente humanos” para serem submetidos à força de trabalho capitalsta. Como legitimador desse ‘conhecimento científico” que contribui para o epistemicídio de saberes do Sul Global, as universidades, com a imposição da visão hegemônica ocidentalocêntrica na modernidade, funciona como espaço de reprodução, legitimação e reconhecimento do capital intelectual do “conhecimento científico” do colonizador, em detrimento do que é denominado de conhecimento popular quando de saberes não legitimados.
O Colonizador tem uma prepotência, em “descobrir”, no sentido de “inventar” novos mundos. Para que isso ocorra, é importante exterminar o que existe, ainda que se refira aos saberes. Conforme Boaventura de Sousa Santos, os saberes a que se refere não têm a conotação foucaultiana, pois esta visão estaria ainda impregnada da modernidade ocidentalocêntrica. Essa prepotência do colonizador é definida pela paçavra hybris, citada tanto por Walter Mignolo e Madina Tlostanova sobre Knowledge Production Systems, como Irene Vallejo, quando fala em arrogância de políticos, em específico, mas que definiria bem a prepotência “epistemológica” do Norte Global colonizador. Para Boaventura (2019), saberes e conhecimento têm o mesmo sentido e quando se trara de Sul Global, tem a ver com práticas de resistência, de insurgência contra uma colonialidade do saber (ou uma colonialidade do conhecimento) que serve somente para, citando Anibal Quijano, como instrumento de continuação da “expansão e o reforço das opressões geradas pelo capitalismo, pelocolonialismo e pelo patriarcado”. A necessidade de reconhecer epistemologias do Sul Global e não desligitimá-las é o que entendemos como Ecologia dos Saberes.
A necssidade de reconhecer epistemologias sulocêntricas permite o questionamento da divisão internacional do trabalho que promove exclusão e são frutos do colonialismo iniciado com o capitalismo dos séculos XV/XVI, como vemos nos questionamentos de Françoise Vergès em sua obra Um Feminismo Decolonial, que destaca o recorte de gênero que pode ser trazido em outras discussões sobre epistemicídios do sul global e decolonização/colonialidades do saber e do poder e subalternidade nas relações advindas da divisão internacional do trabalho atuais com o fim da nova onda colonialista/imperilista iniciada no século XIX.
Laura Berquó
REFERÊNCIAS
BERQUÓ, Laura. Questões étnico-jurídicas da atualidade. Florianópolis: Clube de Autores, 2026.
BULLARD, Nicola. The Encyclopedia of Global Studies. Verbete: Global South, SAGE Publications 2012.
MIGNOLO, Walter e Tlostanova, Madina. The Encyclopedia of Global Studies. Verbete: Knowledge Production Systems, SAGE Publications 2012.
SANTOS, Boaventura de Sousa. O fim do império cognitivo. A afirmação das epistemologias do sul. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A Cruel Pedagogia do Vírus. 2020. Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/89207
VALLEJO, Irene. Alguém falou sobre nós. Lisboa: Bertrand Editora, 2023.
VERGÈS, Françoise. Um feminismo decolonial. 2019. Disponível em: https://mulherespaz.org.br/site/wp-content/uploads/2021/03/Um-feminismo-decolonial.pdf