A urbanista e escritora Joice Berth nos traz o conceito de empoderamento em sua obra ‘Empoderamento’, da coleção Feminismos Plurais. E nessa obra ela trata justamente da relação de estética e empoderamento. E mais, como a construção de padrões podem ser ‘desestimulantes da autoestima de grupos historicamente oprimidos’, senão vejamos:
“Discussões apaixonadas se formam em torno da pergunta: estética é empoderamento? Talvez essas discussões pudessem ser reduzidas se entendêssemos os valores que circulam em torno da estética que é inerente à imagem e em que medida a forma com que padrões criados no cerne de uma sociedade plurirracial e patriarcal podem ser fatalmente excludentes e desestimulantes da autoestima de grupos historicamente oprimidos (...)Temos, então, nesse campo, um elemento importante nos processos de dominação de grupos historicamente oprimidos, pois, uma vez que se criam padrões estéticos pautados pela hierarquização das raças ou do gênero, concomitantemente criamos dois grupos: o que é aceito e o que não é aceito e, portanto, deve ser excluído para garantir a prevalência do que é socialmente desejado. E, assim se deu com o fenótipo da raça negra, desde o período colonial, que, de acordo com Grada Kilomba, é “a máscara que não pode ser esquecida. Ela foi uma peça muito concreta, um instrumento real, que se tornou parte do projeto colonial europeu por mais de 300 anos”” (BERTH: 2019, P.70).
O que se anuncia com a vitória da extrema-direita nas Eleições 2026 para o Congresso Nacional, e uma grande chance de vitória do candidato Flávio Bolsonaro, é o aumento da misoginia estética, com viés racista e moralista. Estamos vendo uma estética branca feminina, há algum tempo, para mulheres de vida pública, com procedimentos estéticos para reforçar a estética clean girl, que faz parecer minimalista e sem a necessidade de maquiagem, mas branca. Além disso, observem a padronização de rostos, inclusive de mulheres da extrema-direita, que reforçaram traços étnicos considerados brancos, com exceção dos lábios preenchidos. Já para mulheres que vivem na sombra de homens da extrema-direita ou que são influencers transfóbicas e anti-feministas, vivemos um momento de exaltação da mulher de presença estética apagada, sem maquiagens e acessórios chamativos, mas brancas. Sem liberdade na forma de se vestirem em estilos mais despojados e de livre movimento dos cabelos, usando suas cores pastéis e de tonalidade clara, porque da mulher na extrema-direita o que se espera é a figura insossa mesmo, no seu “devido lugar”, de passar a imagem de mulher santa, sem ambições de aparecer, discreta, controlada e sem libido. É a estética ideal da mulheridade branca burguesa.
Com o fortalecimento da extrema-direita, a estética e suas formas de expressão serão formas de resistência, como têm sido já há algum tempo com movimentos identitários minoritários, mas agora com o sentido de enfrentar o aumento da misoginia, com recorte estético, que deverá se tornar mais visível nos embates, a partir de 2027, no Congresso Nacional e Assembleias Legislativas, haja vista a eleição também de mulheres negras, indígenas, obesas e trans para assembleias estaduais e para a Câmara dos Deputados.
Laura Berquó

