segunda-feira, 7 de setembro de 2026

UM PAÍS CHAMADO PERNAMBUCO




Semana da Pátria, vamos anunciando a nova novelinha do Blog. Apenas precisando finalizar umas séries. O tema é a Revolução de 1817 que proclamou um país independente em Pernambuco com a adesão da nossa intrépida Paraíba. Sim, a Paraíba já nasceu de uma tragédia (1574) e sempre esteve marcando presença no cenário nacional como a Revolução de 1930 e as Ligas Camponesas. Pernambuco foi um país e isso não podemos contestar. A história começa antes do ano de 1817, com as diversas manifestações pernambucanas anteriores. A partir de 06 de março de 1817 era oficial a Revolução. Com direito ao reconhecimento internacional da República e até um Consul dos EUA instalado no Recife, capital do novo país. Cruz Cabugá fez história sendo o primeiro diplomata brasileiro, nascendo a Diplomacia brasileira, ou melhor, com o país Pernambuco. A perseguição e morte dos paraibanos Amaro Coutinho e José Peregrino de Carvalho ainda ecoam nas matas fechadas do Cabo Branco e no Centro Histórico de João Pessoa. Não esqueçamos da República do Crato com a primeira presa política do país Bárbara Pereira, no contexto da Revolução de 1817, nem de Frei Caneca que ainda teve fôlego para a Confederação do Equador. Por falar em Frei Caneca, a Revolução de 1817/Pernambucana também ficou conhecida como a Revolução dos Padres, contando com a participação de diversos padres paraibanos também. Mas os Pernambucanos não ficaram ociosos até 1824. Como bem me lembrou o Professor Marcelo Neves, um pernambucano orgulhoso de suas raízes, ao falar do Movimento Constitucionalista de 1821 : "Na convenção de Beberibe, em 5 de outubro de 1821, já tínhamos expulsado os portugueses e declarado a independência. Antes do 7 de setembro, Pernambuco já era independente. A história oficial está mal contada." As fontes utilizadas serão de autores paraibanos e a obra "A Revolução de 1817 e a História do Brasil. Um Estudo de História Diplomática." de Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, dentre outras que estou pesquisando. Mas os Pernambucanos estavam cansados. Sendo a capitania mais rica do Brasil, tinha que sustentar o luxo da Corte no Rio, enquanto sua população passava fome com a grande seca de 1816. Esses e outros motivos serão expostos. Mas em João Pessoa ainda se comentam (e lamentam) os locais por onde ficaram expostos partes do corpo esquartejado do jovem de 19 anos José Peregrino de Carvalho. É história demais no nosso querido Nordeste Oriental.


Laura Berquó

MARIA LEOPOLDINA: A INDEPENDÊNCIA ANTES DO IPIRANGA POR SÉRGIO TAMER

 Sergio Tamer

É presidente do Centro Estudos Constitucionais e de Gestão Pública -CECGP; da Academia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política – AMCJSP; e membro da Academia Maranhense de Letras Jurídicas – AMLJ





A Independência do Brasil não cabe inteiramente no célebre quadro de Pedro Américo, nem pode ser compreendida apenas pelo grito atribuído a D. Pedro às margens do Ipiranga. O 7 de Setembro tornou-se, com razão, a data simbólica da emancipação política brasileira, todavia os acontecimentos que conduziram à ruptura com Portugal foram muito mais complexos, pois envolveram diferentes personagens e tiveram, alguns dias antes do episódio paulista, uma protagonista que durante muito tempo não recebeu da narrativa histórica oficial o destaque correspondente à dimensão de sua atuação: Maria Leopoldina de Áustria, princesa regente do Brasil e futura imperatriz.

Reduzir Leopoldina à condição de esposa de D. Pedro I ou de mãe de D. Pedro II é desconhecer a estatura política de uma mulher culta, preparada na tradição diplomática dos Habsburgo e capaz de compreender, talvez com maior clareza que muitos dos homens de seu tempo, a gravidade da crise que se estabelecera entre Brasil e Portugal. Sua participação na Independência foi, dessa maneira, política, institucional e decisória.

          Quando D. João VI regressou a Lisboa, em abril de 1821, deixando seu filho Pedro como príncipe regente, o Brasil encontrava-se em situação completamente distinta daquela existente antes da chegada da Corte portuguesa, em 1808. A abertura dos portos, a instalação de instituições administrativas e culturais e, sobretudo, a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves -, haviam criado uma realidade que não permitia mais fazer o caminho de volta.

          A Revolução Liberal do Porto, ocorrida em 1820, entretanto, colocou em marcha um movimento destinado a recuperar para Portugal parte do poder político e econômico perdido desde a transferência da Corte para o Rio de Janeiro. As Cortes portuguesas passaram a adotar medidas visando a reversão da autonomia adquirida nos anos anteriores. O retorno do próprio D. Pedro era exigido e é nesse contexto que Leopoldina começa a assumir um papel político muito mais relevante do que geralmente lhe atribui a memória popular.

Ela percebeu que a questão já não dizia respeito apenas às relações familiares entre um pai rei e um filho príncipe. Tratava-se de decidir qual seria o destino político de um imenso território que poderia retornar a uma condição de subordinação ou, diante das tensões existentes entre suas províncias, até mesmo fragmentar-se. O Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822, representou uma etapa fundamental desse processo, quando D. Pedro contrariou as determinações das Cortes e decidiu permanecer no Brasil. Leopoldina esteve entre aqueles que mais defenderam essa permanência. Também José Bonifácio de Andrada e Silva compreendeu que, sem uma autoridade política instalada no Rio de Janeiro capaz de manter algum grau de unidade entre as províncias, o futuro do território brasileiro seria imprevisível.

          Em agosto de 1822, D. Pedro partiu para São Paulo, onde enfrentaria uma grave crise política provincial. Antes de viajar, deixou Leopoldina investida na regência. Os registros do Conselho mostram que, na ausência do príncipe, ela ficou incumbida da presidência do Conselho de Ministros e de Estado. E então chegou o momento que Maria Leopoldina deveria ocupar espaço muito maior nos livros de História.

O 2 de setembro – Novas determinações vindas de Lisboa chegaram ao Rio de Janeiro enquanto D. Pedro estava em São Paulo. As notícias aprofundavam a ruptura entre as Cortes portuguesas e o governo instalado no Brasil. Leopoldina não poderia simplesmente esperar. Em 2 de setembro de 1822, presidiu uma sessão extraordinária do Conselho de Estado. A documentação da época registra que os conselheiros discutiram as últimas medidas de Portugal e deliberaram sobre providências de segurança e defesa. A Biblioteca Nacional assinala que aquela reunião orientou D. Pedro a não obedecer às novas determinações portuguesas, precipitando a separação, enquanto publicações institucionais da Câmara e do Senado caracterizam o episódio como a decisão pela ruptura definitiva.

          Há, portanto, uma importante precisão histórica a ser feita. Algumas narrativas denominam o ato de 2 de setembro de “decreto” ou “declaração da Independência” assinada por Leopoldina. A ata original conhecida da sessão não contém, porém, uma fórmula jurídica simples equivalente a “fica declarada a Independência”. O que ela demonstra de forma inequívoca é algo talvez ainda mais importante: Leopoldina estava no exercício da regência, presidiu a instância política que enfrentou a crise e participou diretamente da decisão que conduziu à ruptura. Ou seja: pode-se discutir a denominação jurídica exata do documento porém não a relevância política do ato.

          A princesa e José Bonifácio enviaram então correspondências urgentes a D. Pedro, levando-lhe as notícias de Lisboa e defendendo uma decisão imediata. A documentação e diferentes reconstruções históricas convergem quanto a esse ponto: as mensagens partiram do Rio de Janeiro e alcançaram o príncipe em São Paulo no dia 7. Quando D. Pedro recebeu a correspondência nas proximidades do Ipiranga, a crise política já havia sido examinada no Rio de Janeiro; o Conselho de Estado já se pronunciara; José Bonifácio já defendera a ruptura; e Leopoldina, na condição de regente, já havia exercido sua autoridade política e aconselhado o marido a tomar a decisão definitiva.

Uma mulher no centro do poder – Há também uma circunstância que não pode ser ignorada: estamos falando de uma mulher exercendo autoridade política no início do século XIX, em uma sociedade profundamente patriarcal. Isso confere ao episódio significado ainda maior. A famosa pintura “Sessão do Conselho de Estado”, de Georgina de Albuquerque, realizada em 1922, no centenário da Independência, possui nesse aspecto extraordinário valor simbólico. Em lugar do cavalo, da espada desembainhada e do gesto militar consagrados pela iconografia do Ipiranga, Georgina apresenta outra imagem da emancipação: Leopoldina sentada à mesa do poder, cercada por homens de Estado, participando de uma decisão política. A obra encontra-se na coleção do Museu Histórico Nacional. É uma representação poderosa porque revela duas maneiras de interpretar a História. Uma privilegia o gesto heroico; outra ressalta a construção política que o tornou possível. Ambas, porém, fazem parte do mesmo processo.

A imperatriz que a história redescobriu – Maria Leopoldina viveu pouco. Morreu em dezembro de 1826, aos 29 anos, apenas quatro anos depois da Independência. Não teve, portanto, tempo suficiente para acompanhar o desenvolvimento político do Império que ajudara a criar. Sua memória permaneceu durante muito tempo associada principalmente ao drama pessoal do casamento com D. Pedro e à condição de mãe do futuro imperador Pedro II, mas Leopoldina foi uma personagem política de primeira grandeza em 1822: além de conselheira foi articuladora e regente. E, quando o momento decisivo chegou, não se omitiu diante da responsabilidade que o cargo lhe impunha.

          Talvez essa seja a principal razão pela qual sua participação na Independência precisa ser permanentemente lembrada. A História costuma produzir imagens simples para acontecimentos complexos. O Ipiranga ofereceu ao imaginário nacional uma cena extraordinariamente poderosa: o príncipe, o cavalo, a espada e o brado. Mas a Independência brasileira não começou nem terminou naquele instante. Alguns dias antes, uma mulher ocupou a presidência do Conselho de Estado, avaliou a gravidade das ordens vindas de Lisboa e tomou parte nas decisões que colocariam o Brasil diante de um caminho sem retorno.

          Maria Leopoldina ajudou, assim, de maneira decisiva, a construir a Independência antes que aquele brado de D.Pedro entrasse para a História.

PREVISÃO SEMANAL: ORÁCULO DE CLEÓPATRA

 Prezad@s,


Trouxe um Oráculo diferente, o Oráculo de Cleópatra. Vamos ver o que ele tem para nos dizer?


Opção 1: Jade. Opção 2: Turmalina Rosa 🩷. Opção 3: Pirita.


Resultado:



1. Jade. Fim de ciclos cármicos. Crescimento espiritual. 

2. Turmalina Rosa. Traições, rasteiras podem marcar a semana. Ou notícias nesse sentido.

3.  Pirita. Desavenças familiares. Risco de disputas com pessoas próximas.

Consultas particulares por agendamento: 83 99197-0913. Somente por chamada de vídeo.

Laura Berquó 


PRIMEIRO SOPRO: CURSO DE TUPI-GUARANI

 


DA DIÁSPORA AFRICANA AO CANDOMBLÉ: AS COMUNIDADES TRADICIONAIS DE TERREIRO PARTE 4/4

 

 

Iyá Nassô

Fonte: https://www.instagram.com/reels/DGlEoJDOROQ/

 

DA FORMAÇÃO DAS CASAS DE CANDOMBLÉ: CALUNDUS, CABULAS E EMPODERAMENTO SÓCIO-ECONÔMICO DE MULHERES NEGRAS 

 

"Àwa dúpé ó oba dodé"

“Nós agradecemos a presença do Rei que chegou” Ponto de Xangô Airá

 

  “Eji popo, omonile Omolu bé”

“Senhor do princípio e da terra, Omolu venha nos ajudar” Ponto de Omulu

 

“"Odé komorode, Odé komorode!
Odé arere, Odé komorode!”

“O caçador chegou à nossa comunidade), o caçador chegou!” Ponto de Oxóssi

 

 

                        As raízes históricas do Candomblé estão nos próprios africanos que aqui vieram traficados. Parece óbvio o que está sendo dito, mas na verdade, o que chamamos de Candomblé ou religiões de matrizes africanas são os cultos dedicados aos Inquices (Angola), Voduns (Jeje) e Orixás (Yorubás).

Os Nagôs são um povo ioruba que fundaram as casas de Candomblé da nação ketu, Os Nagôs ou Anagôs são da atual Nigéria, Togo e Benim. Cultuam Orixás. Exemplo: divindade dos ventos e tempestades = Oyá ou Iansã/divindade da guerra e dos metais = Ogum. Os Bantos são povos oriundos de Angola, Congo e Momabique. Os Candomblés de Angola cultuam os Inquinces. Exemplo: divindade dos ventos e tempestades = Matamba ou Bamburucema/divindade da guerra e dos metais = Nkosi. Já os povos Jêjes são da região do antigo Daomé, também parte do atual Benim. Cultua Voduns, que na África são cultuados pelos povos Fon e Ewe. Exemplo: divindade dos ventos e tempestades = Djó/divindade da guerra e dos metais = Gu.

Entretanto, não podemos desprezar os inúmeros cultos decorrentes dos três acima elencados. Então temos: Jeje Mahi, Jeje Savalú, Jeje e Ijexáe juntos, o Tambor de Mina, o Batuque gaúcho, etc. Temos também casas de Ketu e Jêje, como o Xambá no Recife e conhecimentos dos africanos islamizados para todas essas nações que acabaram tendo contato entre si no Brasil. Eram pessoas negras escravizadas de origem muçulmana: Haussás do sul do Níger e norte da Nigéria, os Mandingas da África Ocidental e do Imperio Mali. Estes não compreendem a Nigéria, mas vão do atual Níger até a Gâmbia e Guiné, passando pela região do Sahel.

 

Não podemos também desprezar as religiões que surgem a partir de matrizes africanas juntamente com a origem ameríndia e portuguesa (mestres, bruxas, etc), a exemplo da própria Umbanda após o século XX e o a Jurema Sagrada nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas. Ainda, a Umbanda realmente africana, bem anterior à umbanda embranquecida do século XX, como o Omolocô de origem bantu, nascido no Rio de Janeiro e a Quimbanda que é um rito distinto do Candomblé, mas de origem bantu também. Não temos a pretensão de esgotar os exemplos, para não cairmos na falta de esquecermos alguma tradição.

Acima foi apenas para demonstrar a diversidade de cultos trazidos pelos africanos escravizados para o Brasil. O primeiro registro sobre cultos de origem africana no Brasil é o Calundu. O que é o Calundu?

Segundo a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, Nei Lopes conceitua “calundu” da seguinte forma:

“Denominação de uma antiga modalidade de culto afro-baiano. Por extensão, local onde se realizavam estes cultos. O termo designa também o amuo, a irritação sem motivo aparente. Do quimbundo Kilundu, “ancestral”, “alma de pessoa que viveu em época remota’’, no caso da última acepção, ao entrar no corpo de uma pessoa, a torna irritadiça, mal-humorada, tristonha.”

 

                        Também, ao lado do Calundu, temos a Cabula trazida por escravizados de origem bantu. Assim, informa Nei Lopes:

 

“Cabula. Antiga seita religiosa afro-brasileira. Observada no século XIX, na província do Espirito Santo, seus membros relatavam rituais ao ar livre, no meio do mato, evocando espíritos dos antepassados e utilizando vocabulário de nítida origem bantu. O termo designa, atualmente, um toque de atabaques executado em candomblés de nação angola e congo.”

 

Segundo Juliana Barreto Farias et alli[1], citando Bastide, informam que Gregório de Mattos, o Boca do Inferno, registraria em suas sátiras a presença do Calundu e o público branco que frequentava os rituais. Esses calundus eram chamados de quilombo:

 

“PRECEITO[2]
Que de quilombos que tenho
com mestres superlativos,
nos quais se ensinam de noite
os calundus, e feitiços.
Com devoção os freqüentam
mil sujeitos femininos,
e também muitos barbados,
que se presam de narcisos.
Ventura dizem, que buscam;
não se viu maior delírio!
eu, que os ouço, vejo, e calo
por não poder diverti-los.
O que sei, é, que em tais danças
Satanás anda metido,
e que só tal padre-mestre
pode ensinar tais delírios.
Não há mulher desprezada,
galã desfavorecido,
que deixe de ir ao quilombo
dançar o seu bocadinho.
E gastam pelas patacas
com os mestres do cachimbo,
que são todos jubilados
em depenar tais patinhos.
E quando vão confessar-se,
encobrem aos Padres isto,
porque o têm por passatempo,
por costume, ou por estilo.
Em cumprir as penitências
rebeldes são, e remissos,
e muito pior se as tais
são de jejuns, e cilícios.
A muitos ouço gemer
com pesar muito excessivo,
não pelo horror do pecado,
mas sim por não consegui-lo.”

 

                        Prosseguindo com Juliana Barreto Farias et alli[3], sobre os calundus:

 

“De um modo geral, os calundus eram reuniões festivas, em que os negros, ao longo do século XVIII – dançavam inspirados pelo som de seus tambores. Ali, cultuavam seus deuses, realizavam-se rituais de cura e adivinhações. Não raro, um ou outro frequentador entrava em transe. Tanto os viajantes como as autoridades coloniais e eclesiásticas, consideravam essas práticas religiosas feitiçarias, práticas pagãs que deviam ser combatidas. Mas, já nessa época, os feiticeiros atraiam novos fiéis e clientes, e não apenas entre os escravos africanos e crioulos. Além de seduzir alguns senhores, brancos e mestiços, era até mesmo possível encontrar membros da Igreja Católica nessas cerimônias negras”. (2006: p.125)

 

                        Não obstante a participação de pessoas brancas e até do clero, o calundu foi reprimido e perseguido pela Inquisição. O caso mais famoso foi o de Luzia Pinto em Sabará, Minas Gerais. De origem angolana, no ano de 1744, foi submetida ao Auto de Fé sob acusação de feitiçaria. Já vigorava no Brasil as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia de 1707:

 

“Luzia Pinto (séc. XVIII). Condenada pela Inquisição por feitiçaria. Nasceu em Angola, ɹlha de Miguel da Graça. Negra forra, morava na vila de Sabará (MG). Quando tinha 51 anos, foi denunciada ao Tribunal do Santo Ofício e enviada prisioneira para Portugal, sob as acusações de feitiçaria e de pacto com o demônio. Foi submetida, no dia 21 de junho de 1744, ao Auto de Fé, cerimônia pública marcada por um longo ritual, no Largo do Rocio, em Lisboa, na qual os condenados permaneciam perfilados e expostos ao achincalhe de populares. Eram obrigados a segurar um círio aceso de mais de um metro. À medida que a cerimônia ia se desenrolando, gotas ardentes de cera queimavam suas mãos. Luzia Pinto foi submetida a esse ritual e recebeu por sentença o encarceramento por quatro anos, em Castro Marim, localidade situada na província do Algarve, sul de Portugal, ficando ainda proibida em definitivo de retornar à vila de Sabará. Fonte: Francisco A. Varnhagen, Excertos de várias listas de condenados pela Inquisição de Lisboa.” (SCHUMAHER e BRAZIL: 2000)

 

                        No século XIX, entretanto, temos o surgimento das primeiras casas de Candomblé na Bahia. Até então, muitos calundus e ritualísticas eram realizadas em Igrejas das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos ou de Cor, ou ainda dos Homens Pardos. Em João Pessoa, todas essas igrejas foram demolidas nas décadas de 1920 e 1930. Entretanto, ganhou destaque no século XIX, a figura da mulher negra forra e rica chamada de Maria Serpente e que tinha protagonismo juntos às demais pessoas negras que frequentavam a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Preto (demolida em 1923).

                        A palavra Candomblé já existia antes da fundação das primeiras casas de Axé em Salvador. Referia-se à festa pública, sendo os rituais privados realizados nos espaços particulares. Nesse mesmo sentido é empregada a palavra “terreiro”. Conforme Nina Rodrigues em “O Animismo Fetichista dos Negros Bahianos":

 

 

“A palavra terreiro tem evidentemente duas significações distinctas: nomêa o sitio, lugar ou casa onde reside o chefe e se celebram as festas religiosas, e qualifica a jurisdicção de um pontífice fetichista que dela toma o título de pai ou mãe do terreiro.” (1896: p.69)

 

Na década de 1820, na antiga Ladeira do Berquó, na cidade de Salvador, surge próxima à Igreja da Barroquinha a primeira Casa de Candomblé nos moldes que conhecemos hoje. Não significa dizer, que antes disso, não existissem candomblés no Brasil, como já demonstrado.  Tendo à frente mulheres, foi fundado o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, da nação Ketu, por Francisca da Silva, mulher negra de origem Ijexá, traficada no século XVIII e alforriada, conhecida como Iyá Nassô,  consagrada ao orixá Xangô/Ayrá. Rica, casada com o também forro, também de origem Ijexá, José Pedro Autran. Depois, o Ilê foi transferido para o Engenho Velho e é conhecido mundialmente como Casa Branca.

Há relatos de que o Ilê Axé Iyá Nassô Oká foi fundado por 03 princesas de origem africana: Iyá Nassô, Iyá Adetá e Iyá Akalá, mas segundo Nei Lopes, é provável que se trate da mesma Francisca da Silva, da qual há provas documentais, como testamento e processos judiciais de seus filhos. Segundo Nei Lopes no verbete Adetá:

 

“Adetá. Antropônimo Iorubá, integrante de um repertório de nomes ligados à realeza (de ‘ade’, ‘coroa’). No Brasil, o nome remete a uma das prováveis fundadoras do candomblé do Engenho Velho; ou seria o nome civil da Iyá Nassô Akalá Magbô Oludumarê, formando, assim, a hipótese de que o nome das três supostas fundadoras de terreiro (Iyá Nassô, Iyá Akalá e Iyá Adetá) referir-se-iam na realidade a uma única pessoa.”

 

Conforme Luís Nicolau Parés, em “Libertos Africanos, Comércio Atlântico e Candomblé: a história de uma carta que não chegou ao destino”, Francisca da Silva, nossa Iyá Nassô, era uma rica mulher casada com o comerciante José Pedro Autran. Ambos possuíam muitos escravizados. Mas o que depreendi da exposição é que pelo menos para as mulheres de origem nagô com algum poder aquisitivo, estar cercada de pessoas, era na verdade demonstração de poder e prestígio na própria comunidade.

 

“A propriedade escrava entre os libertos vem sendo discutida pela historiografia com certa recorrência; basta dizer que, numa sociedade escravocrata, ela era habitual entre os que conseguiam acumular algum pecúlio. (...)As pesquisas sobre as trajetórias de vida dos africanos libertos, iniciadas por Katia Mattoso, Maria Inês Cortes de Oliveira, Pierre Verger e João José Reis, têm se multiplicado nas duas últimas décadas. No seu conjunto, elas permitem reconstituir parte importante da rede social dos africanos mais prósperos, ou seja, daqueles que deixaram traços documentais, evidenciando, de forma inequívoca, distintos processos de ascensão social, mais ou menos bem sucedidos e duráveis. Essa minoria negra mais rica circulava nas irmandades católicas e nas corporações militares e, a partir da inserção no mercado de trabalho e no comércio, acumulava riqueza que investia na posse de escravos e imóveis. Essa constatação levou alguns autores, entre os quais me incluo, a postular a existência de uma “elite” negra ou afro-baiana que foi se configurando desde pelo menos o último quartel do século XVIII e, sobretudo, no início do XIX. Parte significativa dos retornados à África após a Revolta dos Malês, inclusive Francisca da Silva e José Pedro Autran, pertenciam a esse grupo seleto dos mais abastados. (...) O que os documentos permitem inferir é a excepcionalidade de certos indivíduos ou, como no caso baiano, casais, como Manoel e Roza ou José Pedro e Francisca, equiparáveis aos “grandes homens” das sociedades iorubás descritos por Karin Barber, que acumulavam poder com base no número de pessoas que podiam agregar em torno de si como dependentes, clientes e seguidores.” (Revista de História: 2019) (Grifo nosso)

 

Este “aquilombamento” em torno de figuras posição econômica e social proeminente entre as pessoas negras, provavelmente era uma das razões das repressões policiais. Como podemos ver em Nina Rodrigues, na edição de 1935 de “Os Africanos no Brasil” ele enumera as seguintes insurreições antes de culminar na Revolta dos Malês em 1835:

Bahia:

Sublevações dos Haussás: 1807, 1809, 1813 e 1816;

Sublevações dos Nagôs: 1826, 1827, 1828 e 1830.

 

Ora, como exposto por Luís Nicolau Parés, esta foi a razão pela qual Iyá Nassô retornou à África, para acompanhar os filhos para Ajudá. Nesse período já era intenso o fluxo comercial e viagens de negros no Brasil que viajavam para a África Ocidental. Os filhos “carnais” de Iyá Nassô se envolveram com a Revolta dos Malês em 1935, embora fossem nagôs:

 

“Um aspecto fundamental dessa pesquisa foi identificar, de forma inequívoca, Francisca da Silva com a lendária Iyá Nassô ou mãe Nassô, título honorifico, na corte de Oyó, da sacerdotisa do orixá do trovão Xangô. Ela foi uma das fundadoras do candomblé Ilê Iyá Nassô, também conhecido como terreiro do Engenho Velho ou Casa Branca, o primeiro no Brasil a ser tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Outro aspecto inovador da pesquisa foi a confirmação do mito de fundação desse candomblé, cuja memória oral evoca uma viagem à África de Iyá Nassô, junto com sua filha de santo Marcelina da Silva (Obatossi), que iria lhe suceder na liderança da comunidade religiosa. Com efeito, em novembro de 1837, Francisca da Silva e seu marido José Pedro Autran, acompanhados de um grupo de uns 25 agregados, entre os quais Marcelina, optaram por escapar à perseguição antiafricana que assolou a Bahia após a Revolta dos Malês, acontecida em 1835. Dois filhos de Francisca foram condenados a galés por sua suposta participação na insurgência, mas a mãe conseguiu comutar a pena para deportação, comprometendo-se, em contrapartida, a pagar a viagem à África e a não voltar nunca mais ao Brasil. Todavia, através da historiadora Kristin Mann, conhecemos uma carta, datada em 1841, remetida a José Pedro Autran em Ajudá, que permitiu localizar o casal naquele porto negreiro na Costa da Mina, na África Ocidental. Naquela altura, eles já faziam parte da comunidade agudá - que agregava mercadores portugueses, brasileiros, luso-africanos e os libertos retornados do Brasil - e mantinham relações comerciais relativamente fluidas com seus parentes da Bahia.”

 

                        Como nos informa Nina Rodrigues, em “O Animismo Fetichista dos Negros Bahianos",os Yorubanos eram em maior número e tinham uma posição econômica mais afortunada:

 

“Dentre as causas que mais devem ter contribuído para essa preferência, sobressaem com certeza a predominância em número e a precedência na acquisição de riquezas ou da liberdade, deste ou daquele grupo africano especial. Assim, ou porque o número de escravos importados de Jorubá para a Bahia fosse maior, ou porque os filhos desta nação mais cedo se libertassem e tivessem adquirido recursos pecuniários, ou porque mais estreitas se tivessem mantido as relações commerciaes directas da antiga província com a cidade africana de Lagos, como ainda hoje existem, ou por todas estas causas reunidas, o que é exacto é que o fetichismo africano na Bahia tem por fórma principal a desta nação e é a servida pela sua língua. (...) Com fórma de culto organizado, acredito que só existem na Bahia a religião dos Jorubanos e sebús, a que chamam vulgarmente religião dos negros de santo ou de candomblé, e a religião dos negros convertidos ao islamismo que se chamam entre si de musulmis, mas a quem os outros chamam, por menosprezo, parece, de malês.” (1896: pp.22-25)

 

No que tange à Revolta dos Malês, embora tenha ficado conhecida por esse nome, segundo Manuel Querino em “A Raça Africana e Seus Costumes”, o maior contingente de processados foram os nagôs, o que justificaria a participação dos filhos de Iyá Nassô:

 

“No Arquivo Público existem 234 processos de revoltosos africanos, sendo: 165 Nagôs, 21 Aussás, 6 Tapas, 5 Bornos, 4 Congos, 3 Cambidas, 3 Minas, 2 Calabares, 1 Ige-bu, 1 Benin e 1 Mendobi, não se encontrando, porém, um só de Malê.” (1955: pp. 112-113)

 

Entretanto, isso não impediu a campanha para que negros islamizados retornassem à África e muitos menos que ocorressem novas conversões ao islamismo. Segundo Nina Rodrigues, em “O Animismo Fetichista dos Negros Bahianos":

 

“As medidas severas tomadas pelo governo, entre as quaes figura a deportação para a Africa de todos os malês libertos, a repressão, muitas vezes cruel e deshumana, das autoridades provinciaes, não só reduziram a um minimo insignificante o numero dos negros mahometanos, como tornaram ainda mais reservadas as suas praticas religiosas. Deixaram apenas, me dizia um velho malê, aquillo em que ninguém póde tocar, a fé que está no coração.(...) No emtanto, apezar da condição de escravos, dos privilégios da antiga religião do Estado, das perseguições que se seguiram aos movimentos sediciosos dos Africanos, o islamismo, no dizer de diversos malês, conta grande numero de conversões, até mesmo de escravos de sacerdotes catholicos, que nem sempre davam o exemplo da cordura e de pureza de costumes, que deles se devia esperar.” (1896, p.33)

 

                        Curiosamente, o fato de pretenderem reprimir e deportar malês e outros negros libertos para a África, não impediu que autoridades continuassem traficando pessoas negras apesar das Leis Feijó e Eusébio de Queiroz. Conforme Manuel Querino:

 

“O Argos Pernambucano, de 30 de Janeiro de 1850, denunciava à nação: “E’ notório o escândalo com que se têm introduzido, na Bahia, reduzidos à escravidão, africanos livres, com a mais evidente conivência do govêrno». O Argos Santo Amarense foi mais preciso, afirmando que «o próprio presidente da província, no dia 21 de Outubro de 1849, ao anoitecer, desembarcara na Cidade de Santo Amaro um grande número de africanos novos que da Capital tinha levado em um barco, e os conduzia para seu engenho”. (1955: pp 33-35)

 

                         

                        Do Engenho Velho para toda a Bahia e para todo o Brasil, seguiram outras casas de Candomblé sendo fundadas, de diversas nações de candomblé, o que não reduziu a intolerância e o racismo religioso. Basta lembrarmos da Quebra de Xangô em 02.02.1912 em Alagoas, em que a Liga dos Republicanos Combatentes, oposição ao Governador Euclides da Mota, invadiu e destruiu mais diversos terreiros.

                        O terreiro da Casa Branca, na ausência de Iyá Nassô, foi dirigido por sua filha-de-santo e ex-escravisada, a nagô Marcelina da Silva, conhecida religiosamente com Iyá Obatossí, também filha do Orixá Xangô, como Francisca da Silva, conhecida como Iyá Nassô, nossa pioneira. Como podemos inferir, os terreiros eram espaços de sobrevivência da ancestralidade e religiosidade, mas também de articulação política e “aquilombamento”, de resistência contra a ordem escravista vigente, de empoderamento de mulheres negras.

 

 Laura Berquó




[1] FARIAS, Juliana Barreto, GOMES, Flávio dos Santos, LÍBANO SOARES, Carlos Eugênio e ARAÚJO, Carlos Eduardo Monteiro de. Cidades Negras. Africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil escravista do século XIX. 2 ed. Alameda: São Paulo, 2006.

[2] Disponível em https://www.sitedoescritor.com.br/sitedoescritor_escritores_gmatos_texto004.html#google_vignette

[3] FARIAS, Juliana Barreto, GOMES, Flávio dos Santos, LÍBANO SOARES, Carlos Eugênio e ARAÚJO, Carlos Eduardo Monteiro de. Cidades Negras. Africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil escravista do século XIX. 2 ed. Alameda: São Paulo, 2006.