
Iyá Nassô
Fonte:
https://www.instagram.com/reels/DGlEoJDOROQ/
DA
FORMAÇÃO DAS CASAS DE CANDOMBLÉ: CALUNDUS, CABULAS E EMPODERAMENTO
SÓCIO-ECONÔMICO DE MULHERES NEGRAS
"Àwa dúpé ó oba dodé"
“Nós agradecemos a presença do Rei que
chegou” Ponto de Xangô Airá
“Eji popo, omonile Omolu bé”
“Senhor do princípio e da terra, Omolu
venha nos ajudar” Ponto de Omulu
“"Odé komorode, Odé komorode!
Odé arere, Odé komorode!”
“O caçador chegou à nossa comunidade), o
caçador chegou!” Ponto de Oxóssi
As
raízes históricas do Candomblé estão nos próprios africanos que aqui vieram
traficados. Parece óbvio o que está sendo dito, mas na verdade, o que chamamos
de Candomblé ou religiões de matrizes africanas são os cultos dedicados aos
Inquices (Angola), Voduns (Jeje) e Orixás (Yorubás).
Os Nagôs são um povo ioruba
que fundaram as casas de Candomblé da nação ketu, Os Nagôs ou Anagôs são da
atual Nigéria, Togo e Benim. Cultuam Orixás. Exemplo: divindade dos ventos e
tempestades = Oyá ou Iansã/divindade da guerra e dos metais = Ogum. Os Bantos são
povos oriundos de Angola, Congo e Momabique. Os Candomblés de Angola cultuam os
Inquinces. Exemplo: divindade dos ventos e tempestades = Matamba
ou Bamburucema/divindade da guerra e dos metais = Nkosi. Já os povos Jêjes são da
região do antigo Daomé, também parte do atual Benim. Cultua Voduns, que na
África são cultuados pelos povos Fon e Ewe. Exemplo: divindade dos ventos e
tempestades = Djó/divindade da guerra e dos metais = Gu.
Entretanto, não podemos
desprezar os inúmeros cultos decorrentes dos três acima elencados. Então temos:
Jeje Mahi, Jeje Savalú, Jeje e Ijexáe juntos, o Tambor de Mina, o Batuque
gaúcho, etc. Temos também casas de Ketu e Jêje, como o Xambá no Recife e conhecimentos
dos africanos islamizados para todas essas nações que acabaram tendo contato
entre si no Brasil. Eram pessoas negras escravizadas de origem muçulmana: Haussás
do sul do Níger e norte da Nigéria, os Mandingas da África Ocidental e do
Imperio Mali. Estes não compreendem a Nigéria, mas vão do atual Níger até a
Gâmbia e Guiné, passando pela região do Sahel.
Não podemos também desprezar
as religiões que surgem a partir de matrizes africanas juntamente com a origem
ameríndia e portuguesa (mestres, bruxas, etc), a exemplo da própria Umbanda
após o século XX e o a Jurema Sagrada nos estados da Paraíba, Rio Grande do
Norte, Pernambuco e Alagoas. Ainda, a Umbanda realmente africana, bem anterior
à umbanda embranquecida do século XX, como o Omolocô de origem bantu, nascido
no Rio de Janeiro e a Quimbanda que é um rito distinto do Candomblé, mas de
origem bantu também. Não temos a pretensão de esgotar os exemplos, para não
cairmos na falta de esquecermos alguma tradição.
Acima foi apenas para
demonstrar a diversidade de cultos trazidos pelos africanos escravizados para o
Brasil. O primeiro registro sobre cultos de origem africana no Brasil é o
Calundu. O que é o Calundu?
Segundo a Enciclopédia
Brasileira da Diáspora Africana, Nei Lopes conceitua “calundu” da seguinte
forma:
“Denominação
de uma antiga modalidade de culto afro-baiano. Por extensão, local onde se
realizavam estes cultos. O termo designa também o amuo, a irritação sem motivo
aparente. Do quimbundo Kilundu,
“ancestral”, “alma de pessoa que viveu em época remota’’, no caso da última
acepção, ao entrar no corpo de uma pessoa, a torna irritadiça, mal-humorada, tristonha.”
Também,
ao lado do Calundu, temos a Cabula trazida por escravizados de origem bantu.
Assim, informa Nei Lopes:
“Cabula.
Antiga seita religiosa afro-brasileira. Observada no século XIX, na província
do Espirito Santo, seus membros relatavam rituais ao ar livre, no meio do mato,
evocando espíritos dos antepassados e utilizando vocabulário de nítida origem
bantu. O termo designa, atualmente, um toque de atabaques executado em
candomblés de nação angola e congo.”
Segundo Juliana Barreto Farias
et alli,
citando Bastide, informam que Gregório de Mattos, o Boca do Inferno,
registraria em suas sátiras a presença do Calundu e o público branco que
frequentava os rituais. Esses calundus eram chamados de quilombo:
“PRECEITO
Que de quilombos que tenho
com mestres superlativos,
nos quais se ensinam de noite
os calundus, e feitiços.
Com devoção os freqüentam
mil sujeitos femininos,
e também muitos barbados,
que se presam de narcisos.
Ventura dizem, que buscam;
não se viu maior delírio!
eu, que os ouço, vejo, e calo
por não poder diverti-los.
O que sei, é, que em tais danças
Satanás anda metido,
e que só tal padre-mestre
pode ensinar tais delírios.
Não há mulher desprezada,
galã desfavorecido,
que deixe de ir ao quilombo
dançar o seu bocadinho.
E gastam pelas patacas
com os mestres do cachimbo,
que são todos jubilados
em depenar tais patinhos.
E quando vão confessar-se,
encobrem aos Padres isto,
porque o têm por passatempo,
por costume, ou por estilo.
Em cumprir as penitências
rebeldes são, e remissos,
e muito pior se as tais
são de jejuns, e cilícios.
A muitos ouço gemer
com pesar muito excessivo,
não pelo horror do pecado,
mas sim por não consegui-lo.”
Prosseguindo
com Juliana Barreto Farias et alli,
sobre os calundus:
“De um
modo geral, os calundus eram reuniões festivas, em que os negros, ao longo do
século XVIII – dançavam inspirados pelo som de seus tambores. Ali, cultuavam
seus deuses, realizavam-se rituais de cura e adivinhações. Não raro, um ou
outro frequentador entrava em transe. Tanto os viajantes como as autoridades
coloniais e eclesiásticas, consideravam essas práticas religiosas feitiçarias,
práticas pagãs que deviam ser combatidas. Mas, já nessa época, os feiticeiros
atraiam novos fiéis e clientes, e não apenas entre os escravos africanos e
crioulos. Além de seduzir alguns senhores, brancos e mestiços, era até mesmo
possível encontrar membros da Igreja Católica nessas cerimônias negras”. (2006:
p.125)
Não
obstante a participação de pessoas brancas e até do clero, o calundu foi
reprimido e perseguido pela Inquisição. O caso mais famoso foi o de Luzia Pinto
em Sabará, Minas Gerais. De origem angolana, no ano de 1744, foi submetida ao
Auto de Fé sob acusação de feitiçaria. Já vigorava no Brasil as Constituições
Primeiras do Arcebispado da Bahia de 1707:
“Luzia
Pinto (séc. XVIII). Condenada pela Inquisição por feitiçaria. Nasceu em Angola,
ɹlha de
Miguel da Graça. Negra forra, morava na vila de Sabará (MG). Quando tinha 51
anos, foi denunciada ao Tribunal do Santo Ofício e enviada prisioneira para
Portugal, sob as acusações de feitiçaria e de pacto com o demônio. Foi
submetida, no dia 21 de junho de 1744, ao Auto de Fé, cerimônia pública marcada
por um longo ritual, no Largo do Rocio, em Lisboa, na qual os condenados
permaneciam perfilados e expostos ao achincalhe de populares. Eram obrigados a
segurar um círio aceso de mais de um metro. À medida que a cerimônia ia se
desenrolando, gotas ardentes de cera queimavam suas mãos. Luzia Pinto foi
submetida a esse ritual e recebeu por sentença o encarceramento por quatro
anos, em Castro Marim, localidade situada na província do Algarve, sul de
Portugal, ficando ainda proibida em definitivo de retornar à vila de Sabará.
Fonte: Francisco A. Varnhagen, Excertos de várias listas de condenados pela
Inquisição de Lisboa.” (SCHUMAHER e BRAZIL: 2000)
No
século XIX, entretanto, temos o surgimento das primeiras casas de Candomblé na
Bahia. Até então, muitos calundus e ritualísticas eram realizadas em Igrejas
das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos ou de
Cor, ou ainda dos Homens Pardos. Em João Pessoa, todas essas igrejas foram
demolidas nas décadas de 1920 e 1930. Entretanto, ganhou destaque no século
XIX, a figura da mulher negra forra e rica chamada de Maria Serpente e que
tinha protagonismo juntos às demais pessoas negras que frequentavam a Igreja de
Nossa Senhora do Rosário dos Homens Preto (demolida em 1923).
A
palavra Candomblé já existia antes da fundação das primeiras casas de Axé em
Salvador. Referia-se à festa pública, sendo os rituais privados realizados nos
espaços particulares. Nesse mesmo sentido é empregada a palavra “terreiro”.
Conforme Nina Rodrigues em “O
Animismo Fetichista dos Negros Bahianos":
“A
palavra terreiro tem evidentemente duas significações distinctas: nomêa o
sitio, lugar ou casa onde reside o chefe e se celebram as festas religiosas, e
qualifica a jurisdicção de um pontífice fetichista que dela toma o título de
pai ou mãe do terreiro.” (1896: p.69)
Na década de 1820, na antiga
Ladeira do Berquó, na cidade de Salvador, surge próxima à Igreja da Barroquinha
a primeira Casa de Candomblé nos moldes que conhecemos hoje. Não significa
dizer, que antes disso, não existissem candomblés no Brasil, como já
demonstrado. Tendo à frente mulheres,
foi fundado o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, da nação Ketu, por Francisca da Silva,
mulher negra de origem Ijexá, traficada no século XVIII e alforriada, conhecida
como Iyá Nassô, consagrada ao orixá
Xangô/Ayrá. Rica, casada com o também forro, também de origem Ijexá, José Pedro
Autran. Depois, o Ilê foi transferido para o Engenho Velho e é conhecido
mundialmente como Casa Branca.
Há relatos de que o Ilê Axé
Iyá Nassô Oká foi fundado por 03 princesas de origem africana: Iyá Nassô, Iyá
Adetá e Iyá Akalá, mas segundo Nei Lopes, é provável que se trate da mesma
Francisca da Silva, da qual há provas documentais, como testamento e processos
judiciais de seus filhos. Segundo Nei Lopes no verbete Adetá:
“Adetá.
Antropônimo Iorubá, integrante de um repertório de nomes ligados à realeza (de
‘ade’, ‘coroa’). No Brasil, o nome remete a uma das prováveis fundadoras do
candomblé do Engenho Velho; ou seria o nome civil da Iyá Nassô Akalá Magbô
Oludumarê, formando, assim, a hipótese de que o nome das três supostas
fundadoras de terreiro (Iyá Nassô, Iyá Akalá e Iyá Adetá) referir-se-iam na
realidade a uma única pessoa.”
Conforme Luís Nicolau Parés,
em “Libertos Africanos, Comércio Atlântico e Candomblé: a história de uma carta
que não chegou ao destino”, Francisca da Silva, nossa Iyá Nassô, era uma rica
mulher casada com o comerciante José Pedro Autran. Ambos possuíam muitos
escravizados. Mas o que depreendi da exposição é que pelo menos para as
mulheres de origem nagô com algum poder aquisitivo, estar cercada de pessoas,
era na verdade demonstração de poder e prestígio na própria comunidade.
“A
propriedade escrava entre os libertos vem sendo discutida pela historiografia
com certa recorrência; basta dizer que, numa sociedade escravocrata, ela era
habitual entre os que conseguiam acumular algum pecúlio. (...)As pesquisas
sobre as trajetórias de vida dos africanos libertos, iniciadas por Katia
Mattoso, Maria
Inês Cortes de Oliveira, Pierre
Verger e João
José Reis, têm se multiplicado nas duas últimas décadas. No seu
conjunto, elas permitem reconstituir parte importante da rede social dos
africanos mais prósperos, ou seja, daqueles que deixaram traços documentais,
evidenciando, de forma inequívoca, distintos processos de ascensão social, mais
ou menos bem sucedidos e duráveis. Essa minoria negra mais rica circulava nas
irmandades católicas e nas corporações militares e, a partir da inserção no
mercado de trabalho e no comércio, acumulava riqueza que investia na posse de
escravos e imóveis. Essa constatação levou alguns autores, entre os quais me
incluo, a postular a existência de uma “elite” negra ou afro-baiana que foi se
configurando desde pelo menos o último quartel do século XVIII e, sobretudo, no
início do XIX. Parte significativa dos retornados à África após a Revolta dos
Malês, inclusive Francisca da Silva e José Pedro Autran, pertenciam a esse
grupo seleto dos mais abastados. (...) O que os documentos permitem inferir é a
excepcionalidade de certos indivíduos ou, como no caso baiano, casais, como
Manoel e Roza ou José Pedro e Francisca, equiparáveis aos “grandes homens” das
sociedades iorubás descritos por Karin
Barber, que acumulavam poder com base no número de pessoas que
podiam agregar em torno de si como dependentes, clientes e seguidores.” (Revista
de História: 2019) (Grifo nosso)
Este “aquilombamento” em torno
de figuras posição econômica e social proeminente entre as pessoas negras,
provavelmente era uma das razões das repressões policiais. Como podemos ver em
Nina Rodrigues, na edição de 1935 de “Os Africanos no Brasil” ele enumera as
seguintes insurreições antes de culminar na Revolta dos Malês em 1835:
Bahia:
Sublevações
dos Haussás: 1807, 1809, 1813 e 1816;
Sublevações
dos Nagôs: 1826, 1827, 1828 e 1830.
Ora, como
exposto por Luís Nicolau Parés, esta foi a razão pela qual Iyá Nassô
retornou à África, para acompanhar os filhos para Ajudá. Nesse período já era
intenso o fluxo comercial e viagens de negros no Brasil que viajavam para a África
Ocidental. Os filhos “carnais” de Iyá Nassô se envolveram com a Revolta dos
Malês em 1935, embora fossem nagôs:
“Um
aspecto fundamental dessa pesquisa foi identificar, de forma inequívoca,
Francisca da Silva com a lendária Iyá Nassô ou mãe Nassô, título honorifico, na
corte de Oyó, da sacerdotisa do orixá do trovão Xangô. Ela foi uma das
fundadoras do candomblé Ilê Iyá Nassô, também conhecido como terreiro do
Engenho Velho ou Casa Branca, o primeiro no Brasil a ser tombado pelo Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Outro aspecto inovador da
pesquisa foi a confirmação do mito de fundação desse candomblé, cuja memória
oral evoca uma viagem à África de Iyá Nassô, junto com sua filha de santo
Marcelina da Silva (Obatossi), que iria lhe suceder na liderança da comunidade
religiosa. Com efeito, em novembro de 1837, Francisca da Silva e seu marido José
Pedro Autran, acompanhados de um grupo de uns 25 agregados, entre os quais
Marcelina, optaram por escapar à perseguição antiafricana que assolou a Bahia
após a Revolta dos Malês, acontecida em 1835. Dois filhos de Francisca foram
condenados a galés por sua suposta participação na insurgência, mas a mãe
conseguiu comutar a pena para deportação, comprometendo-se, em contrapartida, a
pagar a viagem à África e a não voltar nunca mais ao Brasil. Todavia, através
da historiadora Kristin Mann, conhecemos uma carta, datada em 1841, remetida a
José Pedro Autran em Ajudá, que permitiu localizar o casal naquele porto
negreiro na Costa da Mina, na África Ocidental. Naquela altura, eles já faziam
parte da comunidade agudá - que agregava mercadores portugueses, brasileiros,
luso-africanos e os libertos retornados do Brasil - e mantinham relações
comerciais relativamente fluidas com seus parentes da Bahia.”
Como
nos informa Nina Rodrigues, em “O
Animismo Fetichista dos Negros Bahianos",os Yorubanos eram em
maior número e tinham uma posição econômica mais afortunada:
“Dentre
as causas que mais devem ter contribuído para essa preferência, sobressaem com
certeza a predominância em número e a precedência na acquisição de riquezas ou
da liberdade, deste ou daquele grupo africano especial. Assim, ou porque o
número de escravos importados de Jorubá para a Bahia fosse maior, ou porque os
filhos desta nação mais cedo se libertassem e tivessem adquirido recursos
pecuniários, ou porque mais estreitas se tivessem mantido as relações
commerciaes directas da antiga província com a cidade africana de Lagos, como
ainda hoje existem, ou por todas estas causas reunidas, o que é exacto é que o
fetichismo africano na Bahia tem por fórma principal a desta nação e é a
servida pela sua língua. (...) Com fórma de culto organizado, acredito que só
existem na Bahia a religião dos Jorubanos e sebús, a que chamam vulgarmente
religião dos negros de santo ou de candomblé, e a religião dos negros convertidos
ao islamismo que se chamam entre si de musulmis, mas a quem os outros chamam,
por menosprezo, parece, de malês.” (1896: pp.22-25)
No que tange à Revolta dos Malês, embora tenha ficado
conhecida por esse nome, segundo Manuel Querino em “A Raça Africana e Seus
Costumes”, o maior contingente de processados foram os nagôs, o que
justificaria a participação dos filhos de Iyá Nassô:
“No Arquivo
Público existem 234 processos de
revoltosos
africanos, sendo: 165 Nagôs, 21 Aussás, 6 Tapas, 5 Bornos, 4 Congos, 3
Cambidas, 3 Minas, 2 Calabares, 1 Ige-bu, 1 Benin e 1 Mendobi, não se encontrando,
porém, um só de Malê.” (1955: pp. 112-113)
Entretanto, isso não impediu a
campanha para que negros islamizados retornassem à África e muitos menos que
ocorressem novas conversões ao islamismo. Segundo Nina Rodrigues, em “O Animismo Fetichista dos Negros
Bahianos":
“As
medidas severas tomadas pelo governo, entre as quaes figura a deportação para a
Africa de todos os malês libertos, a repressão, muitas vezes cruel e deshumana,
das autoridades provinciaes, não só reduziram a um minimo insignificante o
numero dos negros mahometanos, como tornaram ainda mais reservadas as suas
praticas religiosas. Deixaram apenas, me dizia um velho malê, aquillo em que
ninguém póde tocar, a fé que está no coração.(...) No emtanto, apezar da
condição de escravos, dos privilégios da antiga religião do Estado, das
perseguições que se seguiram aos movimentos sediciosos dos Africanos, o
islamismo, no dizer de diversos malês, conta grande numero de conversões, até
mesmo de escravos de sacerdotes catholicos, que nem sempre davam o exemplo da
cordura e de pureza de costumes, que deles se devia esperar.” (1896, p.33)
Curiosamente,
o fato de pretenderem reprimir e deportar malês e outros negros libertos para a
África, não impediu que autoridades continuassem traficando pessoas negras
apesar das Leis Feijó e Eusébio de Queiroz. Conforme Manuel Querino:
“O Argos
Pernambucano, de 30 de Janeiro de 1850, denunciava à nação: “E’ notório o
escândalo com que se têm introduzido, na Bahia, reduzidos à escravidão,
africanos livres, com a mais evidente conivência do govêrno». O Argos Santo
Amarense foi mais preciso, afirmando que «o próprio presidente da província, no
dia 21 de Outubro de 1849, ao anoitecer, desembarcara na Cidade de Santo Amaro
um grande número de africanos novos que da Capital tinha levado em um barco, e
os conduzia para seu engenho”. (1955: pp 33-35)
Do
Engenho Velho para toda a Bahia e para todo o Brasil, seguiram outras casas de Candomblé
sendo fundadas, de diversas nações de candomblé, o que não reduziu a
intolerância e o racismo religioso. Basta lembrarmos da Quebra de Xangô em
02.02.1912 em Alagoas, em que a Liga dos Republicanos Combatentes, oposição ao
Governador Euclides da Mota, invadiu e destruiu mais diversos terreiros.
O
terreiro da Casa Branca, na ausência de Iyá Nassô, foi dirigido por sua
filha-de-santo e ex-escravisada, a nagô Marcelina da Silva, conhecida
religiosamente com Iyá Obatossí, também filha do Orixá Xangô, como Francisca da
Silva, conhecida como Iyá Nassô, nossa pioneira. Como podemos inferir, os
terreiros eram espaços de sobrevivência da ancestralidade e religiosidade, mas
também de articulação política e “aquilombamento”, de resistência contra a
ordem escravista vigente, de empoderamento de mulheres negras.
Laura Berquó