domingo, 8 de março de 2026

PARTE 2 A MULHERIDADE BRANCA BURGUESA NO 8 DE MARÇO: EXPERIÊNCIAS


 Continuando as experiências com a mulheridade branca de mentalidade burguesa, perpetuadora e vítima do pior do patriarcado (sim, o patriarcado pode ter coisas boas como instituições, estruturas, Leis, etc), lembro de situações que presenciei como advogada. Nessa condição fui tanto advogada familiarista, acompanhando mulheres em processos de divórcio, como também na condição de Conselheira Estadual de Diretos Humanos , ao acompanhar familiares de vítimas de assassinatos, percebi algo comum na mulheridade branca burguesa: o comportamento ditado pela religião e o contexto de classe que ou é feito por pessoas brancas ou embranquece as mentalidades. 

Lembro que uma das coisas que me chamavam a atenção em alguns divórcios era a dificuldade de algumas mulheres lidarem com a falta de retorno do investimento emocional e moral feitos no casamento. Depois de seguirem uma mocidade dentro dos limites impostos pela religião, guardarem seu bem mais precioso para a noite de núpcias, serem estritamente obedientes aos pais, e depois essa obediência ser repassada ao casamento, com renuncia de um próspero caminho profissional, o normal, como devia ser de se esperar, seria que fossem colocadas em um altar, um pedestal, pelo marido e filhos. Não era o que acontecia, obviamente, e o fato de muitas vezes serem demandadas pelos maridos em ações de divórcio fazia com essas mulheres, sem perceberem, questionassem o que saiu errado, já que seguiram corretamente o script. O que haviam prometido, em troca de serem tão obedientes, não existia ou não se consumou. Foram lesadas. O reconhecimento por serem mulheres virtuosas não chegou. 

Outro ponto que percebi, bem específico da mulheridade branca burguesa, de um modo geral, é o extremo medo de aparentarem vulgaridade. Como advogada percebo colegas que renunciam à feminilidade e fazem disso o ponto central de sua personalidade: aparentarem ser profissionais, serem mínimas na aparência, porque maquiagem e enfeites não ficam bem (para quem?), precisam aparentar uma imagem assexuada. Afinal, precisam ser uma caricatura feminina do homem de negócios. Nada mais do que o feminismo liberal (e branco) parece pregar, que mulheres podem ascender profissionalmente, mas para isso precisam parecer como homens nos direitos de igualdade que somente a classe pode produzir: lugares de comando (nunca de quem obedece), serem suas próprias empreendedoras, serem competitivas, mesmo que tornem invisíveis outras mulheres. Daí minha inclinação ao feminismo decolonial. Não percebo, no  entanto, esse comportamento de renúncia da própria feminilidade nas colegas da Paraíba. Aqui a feminilidade  flui de forma harmoniosa, em paralelo com o desempenho profissional. Somos muito vaidosas aqui, sem que isso coloque em questionamento a nossa capacidade. Não aderimos 100% ao estilo minimalista assexuado ou à aparência imposta pelo feminismo liberal.

Outro acontecimento que me chamou a atenção foi como Conselheira Estadual de Direitos Humanos e advogada. Uma mulher branca de origem em grande colonizador do interior do Estado, muito católica, teve o filho assassinado a mando de um esquema político corrupto daqui. Numa palestra dada pelo mandante do assassinato, compareceu e peitou o sujeito, como em outras situações já havia demonstrado estar no limite emocional com aquela situação. Qual a surpresa que tive quando ela me contou que as irmãs e familiares chamaram a atenção dela, porque não ficava bem para uma mulher da origem dela, do nível dela (só faltou falar da cor dela), fazer barracos publicamente apontando o mandante do assassinato do filho? Quer dizer que você perde o filho assassinado e não pode extravasar a dor, porque não fica bem para uma mulher branca de origem social abastada ter explosões públicas de dor. Parece que chorar e gritar pelos filhos mortos só pode para mulheres pretas e pardas de periferia que perdem seus filhos para a violência estrutural e institucional.  

A mulheridade branca marca seu lugar a partir de um pensamento de cor, mas também de classe, do qual trata com desprezo as demais mulheres, deixando para as "outras" o lado "sujo" da sensualidade que são ensinadas a reprimirem desde novas para conseguirem o grande prêmio que é a respeitabilidade, o reconhecimento, essa compensação secundária. Certa vez, no carro com duas amigas negras, eu comentei sobre um homem que estava me fazendo a corte, mas eu sabia que o intuito era só sexual, no que uma delas disse: "você ainda recebe a corte, porque é branca. Se fosse negra te chamariam logo para a cama". E é verdade. Nada mais certo do que diz Lélia Gonzalez (e nessa fala ela traduz a mentalidade da mulheridade branca burguesa e homens no trato com as mulheres a partir da cor): "negra para trabalhar, mulata para foder e branca para casar". 

Em breve trarei resumos de livros que tratam da mulheridade branca de pensamento burguês , aqui entendido como um lugar de mentalidade e não propriamente de renda, patrimônio, etc.

Na foto, o livro que já está sendo elaborado, em que irei fundamentar as ideias trazidas com o pensamento de estudiosas/os sobre sexualidade, classe, cor/raça e feministas. Previsão de lançamento no segundo semestre de 2026.

O estudo da mulheridade branca burguesa, em específico, deve contribuir como um dos aspectos críticos da branquitude e perpetuadora das violências do patriarcado.


Laura Berquó

A MULHERIDADE BRANCA BURGUESA NO 8 DE MARÇO: EXPERIÊNCIAS

 


Hoje, mais um dia oito de março. Não quero me colocar em um processo de revitinizacão, mas é bom lembrar que na vida de uma mulher isso acontece constantemente.

Hoje lembrei de como o dinheiro público serviu para patrocinar blogs que me difamaram com expressões pejorativas e deturpando fatos, para que eu fosse a "louca", "sem credibilidade", com as piores fotos descabelada, etc. Foi uma época de linchamento moral, sob o silêncio de feministas. Afinal, se eu não tivesse ferido o ego de um homem branco, hétero, cis e de sigla à esquerda, isso não teria acontecido. Porque entre mim e um homem com poder, não existe essa de sororidade.

Hoje lembrei também do dia que fui quase estuprada por um pedreiro quando entrei por engano em um prédio em reforma e pedi informações. Uma colega marcou comigo no escritório dela e deu como referência que o escritório dela estava em obras. Era uma casa (escritório) em obras.  Só que na rua existia outro escritório em obras e perguntei na entrada se era o escritório dela. O pedreiro disse que sim e que me levaria até a sala dela. Ele estava me levando pra uma sala cheia de facões e me pegou pelo quadril e disse que eu entrasse. Eu corri e comecei a gritar na rua, a delegacia era próxima e eu e ele fomos levados. Na época foi tratado como importunação sexual, porque ele apenas teria colocado a mão no meu quadril e importunação sexual era contravenção penal naquele tempo. De modo que prescreveu. Mas lembro dos policiais rindo "com todo respeito" quando sai da Delegacia: "o cara viu uma Galega dessas e pensou que era o grande dia dele". Afinal, só quem paga pelo próprio equívoco é a mulher. E eu errei a casa....

Uma das piores fases da minha vida foi a infância. Como herdeira de um forma de pensar típica da mulheridade branca burguesa (e aqui falo de mentalidade, e não de condição financeira propriamente dita ou cor de pele), crescemos educadas a tratarmos de questões em que somos vítimas, internamente ou discretamente nos espaços de adoecimento, para não escandalizar algo maior que nossa individualidade, porque nossa identidade é de grupo: o nome dos outros, o nome dos espaços, o nome da família, etc. Você segue inominada e como extensão de algo estranho ao seu corpo, sendo que nunca nos sentamos à mesa com os agressores e quando isso acontece é com desigualdade de armas. Falo tudo por experiência própria. Falar do pensamento da mulheridade branca burguesa e o adoecimento que causa e apoio na manutenção de violência contra mulheres (todas) é meu lugar de fala. A mulheridade branca burguesa vive para os outros, nunca para si: regras de repressão sexual desde cedo apreendidas. Cautela ao se expressar sexualmente, para não ser confundida com "outras". Cautela ao se expressar em tudo. O apontamento da estrutura da sociedade que diz que você saiu do script e por isso, será castigada. O rótulo de louca, etc. E o grande prêmio para a mulheridade branca burguesa é depois de ter seguido todas as regras, ter o reconhecimento social de respeitabilidade e ser escolhida por um homem que a transformará na Sra Fulano. Não estou criticando mulheres casadas. Mas na mulheridade branca burguesa há uma ferida narcísica quando percebe que toda essa repressão aceita não foi o suficiente para o reconhecimento. É como quem diz: "sou merecedora, mas meu prêmio não chegou. Como? É meu de direito. Eu segui o script e não fui santificada e nem posta em um pedestal". Mas voltando à violência adultocêntrica e infantilização, a violência adultocêntrica é apontada como produto do patriarcado. Não sei se no matriarcado seria diferente. Vocês já viram mulheres autoritárias? Mas Saffioti diz que a violência contra crianças não deixa de ser uma delegação do patriarcado às mulheres e por isso mulheres podem sim, serem cúmplices do patriarcado. E aqui uso isso como analogia para a infantilização em espaços institucionais, espaços de participação pública de mulheres, embora a Convenção de Belém do Pará de 1994 diga que o Direito de Associação seja um direito humano das mulheres e aqui falo do direito de não ser perseguida nesses espaços.

Essa infantilização e violência adultocêntrica perpassam espaços em que minorias precisam ser infantilizadas para terem "salvadores" ou simplesmente são esmagadas. O mundo Ocidental trouxe, inclusive, a institucionalização simbólica de quem tem o direito de gládio sobre quem e o Estado permanece exercendo esse Direito de Gládio. 

No mundo adultocêntrico branco, sustentado pela mulheridade branca de mentalidade burguesa, não existe violência contra crianças, porque o importante é viver com a imagem "em conserva" ou como propaganda de margarina, até que aparecem já mortas as vítimas como Leandros, Isabelas, Henrys, etc. A hipocrisia social vai dizer "Ohhhhh" para uma situação que todos sabem existir, porque no mundo branco a violência é sempre institucionalizada ou na família ou em assédios institucionais, da porta para dentro, onde se particulariza espaços públicos ou no caso das famílias, onde se tenta esconder a disfuncionalidade. O mundo adultocêntrico branco é racista, por tentar fazer acreditar que lares não-brancos são disfuncionais, quando na verdade, crianças brancas sofrem da porta para dentro e crianças não-brancas, mesmo amadas pela família serão vítimas em potencial da porta da rua pra fora pelas mãos do Estado. A mulheridade branca burguesa é uma das maiores contribuições e cúmplice do patriarcado e me refiro aqui à mentalidade. Porque como assimilação, após ascenção de classe, outros grupos adotam o modo de pensar da mulheridade branca burguesa, porque na verdade é uma extensão do patriarcado.

Prosseguindo sobre hoje, Dia Internacional da Mulher. O sempre previsível dia de parabenizações, mesmo em espaços em que algumas mulheres são mais mulheres ou menos mulheres para fins de assédio institucional e desrespeito como o que passei na Comissão de Direitos Humanos no IAB com constante mainterrupting e na própria instituição. Não existe isso de tratar violência institucional "em casa" e com seus agressores. Parece uma extensão da mentalidade patriarcal perpetuada pela forma de pensar da mulheridade branca burguesa. 

Fica o registro, para não cair no esquecimento que há acepcão de mulheres quando elas incomodam. As flores de hoje são para as que não desagradam. No patriarcado, o primeiro silenciamento é o da fala. O segundo é o do corpo.


Laura Berquó 

segunda-feira, 2 de março de 2026

COMO ADQUIRIR O LIVRO PARECERES JURÍDICOS

 

Entrem nesse endereço para adquirirem o livro Pareceres Jurídicos. O Clube dos Autores é um espaço para publicação independente das grandes editoras, dando mais autonomia para autores e viabilizando a publicação em grandes plataformas.

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PRÓXIMO LANÇAMENTO





Previsão para segunda metade de abril de 2026.


Beijo no coração de tod@s.


Laura Berquó 
 

domingo, 1 de março de 2026

LIVRO PUBLICADO: PARECERES JURÍDICOS


 


Livro publicado.

Para ter acesso e adquirir:

https://clubedeautores.com.br/livro/pareces-juridicos. 

O ISBN sairá na contracapa em até 03 dias úteis.

Laura Berquó 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O DOTE - PARTE 1





Escrevo sempre em partes para poder retomar a um assunto sempre quando possível. Nada dou por encerrado. Hoje começarei a falar sobre o dote. Parece que o dote não possui relevância cultural e que deixou de existir. Mas não é bem assim. No patriarcado ele toma sentidos diferentes ao redor do mundo. Existe ainda o dote "culturalmente construído" que pude perceber na Paraíba, tanto de abordagens quando jovem, como ao advogar em divórcios de senhoras nascidas e criadas no interior.  Quando jovem recebi abordagens de jovens que eram noivos de moças cujos pais tinham dinheiro e poderiam abrir portas, além de sobrenome local. Não entendia o porquê da abordagem em cima de mim se eram noivos e na época eu era apenas uma virgem natural do Rio. Mas como se dizia até pouco tempo em alguns interiores, a única virtude da moça pobre era o famoso "cabaço" (hímen).  Então não faltavam tentativas sem maiores propósitos. A preocupação de muitos pais posicionados na sociedade local e com sobrenome regional era que suas filhas não se casassem e se "perdessem". Isso até perto de fins do século XX. Daí quando a filha entrava na idade de "arranjar marido", ainda que fosse um rapaz de condições mais humildes, o sogro facilitava a vida profissional do futuro genro. Uma realidade comum até os fins dos anos 90, como dito. E as demais moças sem "dotes" nesse mercado oficioso de posses com certeza estavam nos planos futuros de muitos, mas como amantes ou aventuras. Essa  era a realidade que muitos não dizem, mas pode ser verificada com a existência de brigas eternas na justiça em que o morto tinha várias famílias paralelas e os inventários se arrastam até hoje. Para esposa a que tem sobrenome, conhecimento entre famílias ou cujo pai ajude no futuro do genro. Para amantes, as demais. Embora quase nunca falado, no Brasil o rol de regimes de bens para fins matrimoniais não apresenta um número e tipos taxativos, podendo quaisquer outros, diversos do legal, serem adotados. O regime dotal teria sido excluído, embora adotado só oficiosamente? A razão do dote é porque pelo menos em Portugal, durante o Antigo Regime, a mulher não era herdeira. O dote foi uma forma de doação encontrada pelos pais para ajudarem a filha (embora não fossem bens parafernais), já que não tinha perspectiva futura à herança e assim poder assegurar indiretamente uma parte do patrimônio na construção da sua futura família. Também isso justifica muitos casamentos endogâmicos entre pessoas de maiores posses, entrelaçando os parentescos. A condição econômica e acesso menor dos homens não-primogênitos à herança também acabava por excluir muitos do mercado afetivo, como se vê na França medieval contada por Jules Michelet em A Feiticeira. Porém, nem sempre a ideia de dote é a de compra de um cônjuge, como no Ocidente. Talvez a única ideia comum com as demais seja que a família é uma unidade econômica reprodutora de capital. Tempos depois em que a virgindade da mulher passou a ser um peso pra ela e um direito do homem, o dote passou a ser a forma de garantir também a não -violação da honra da mulher e muitos casamentos hipogâmicos (a mulher com uma condição econômica superior ao do homem) passaram a ser realizados, cujos efeitos eram bem visíveis até fins dos anos 90. Mas o antropólogo senegalês Cheick Anta Diop, em sua obra A Unidade Cultural da África Negra, conhecida pela defesa da existência do matriarcado vivido por várias nações africanas e críticas a Bachofen e Engels, pode nos trazer um outro ponto de vista sobre o dote ainda em sociedades patriarcais. No caso, como acontece em muitos povos muçulmanos na África, o dote não é a "compra" da esposa, diferente do Ocidente em que na proteção mais recente da "honra" da mulher pode se "comprar" um marido. O que Anta Diop diz é que no contexto do patriarcado e do fenômeno da patrilocalidade, o homem deve "ressarcir" o núcleo familiar da esposa, haja vista que após o casamento, a mulher passa a integrar o núcleo do marido. O dote, nesse caso, é a compensação por uma perda. Iremos retomar sempre que possível a esse assunto para entendermos como o direito não vigente ainda tem força cultural e o dote simbólico é um deles no Nordeste do Brasil. 


Laura Berquó

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A FONTE DOS MILAGRES E O CRIME DO FREI - PARTE 1



Hoje só temos o que restou da Fonte dos Milagres (foto acima de minha autoria), na atual Rua Augusto Simões - Parque da Pólvora - João Pessoa. Apenas um muro feito a partir da antiga fonte com a data 1849, ano de alguma reforma.  Provavelmente foi a primeira fonte da cidade, porque no início da formação da cidade, constava como limite urbano e sesmaria, segundo José Leal. Mas em 31.07.1801, um crime chocou a antiga cidade da Parahyba (nome anterior de João Pessoa). No fim da tarde de 30.07.1801 era assassinada a pauladas e depois empalada a bela mulher do povo chamada Thereza, também referida como "Mulata" Thereza, embora só se tenha certeza da origem da mãe que era uma mulher indígena. Thereza era uma mulher muito pobre que morava nos arredores da antiga Lagoa dos Irerês, atual Parque Solón de Lucena, um dos cartões postais de nossa capital. Até o início do século XX há relatos de que aquela área era muito rica em árvores frutíferas. Área foreira pertencente à Igreja naqueles tempos antigos, no início do século XIX, por ser considerada arrabalde do centro urbano, abrigava pessoas pobres em seus sítios. Thereza morava com sua filha Anna, que segundo pude ler ao longo desses anos foi a única a testemunhar o assassinato da mãe e identificar os seus algozes. A idade de Anna varia entre 03 a 10 anos nas fontes pesquisadas. Biu Ramos cita a idade de 07 anos. A bela Thereza trabalhava com coisas comuns às mulheres de baixa renda de seu tempo, como também completava seu orçamento com prostituição, o que também era uma prática comum naquele tempo para mulheres pobres. Criava sozinha a filha.


 O que ocasionou o feminicídio foi o fato do Frei José de Jesus Cristo de Maria Lopes ter se apaixonado por ela. Figura repugnante, o franciscano de origem espanhola era, segundo Biu Ramos, com base em Irineu Pinto, detestado pela população pobre devido às suas maldades. Por ciúmes planejou a morte de Thereza que, que costumava manter relações com ele de forma forçada e sob ameaças. No crime foi ajudado por um homem escravizado e um homem indígena que veio da Baía da Traição só com essa finalidade. O corpo só foi encontrado ao amanhecer do dia 31.07.1801 por populares, causando grande revolta e comoção na população. 

Para maiores detalhes indico a obra de Biu Ramos: 'Os Crimes que Abalaram a Paraíba'. Segundo Biu Ramos este foi o primeiro crime sem motivação política que abalou a Paraíba. 

O Frei não foi julgado pela Justiça secular. Foi julgado por seus irmãos franciscanos em Salvador de acordo com o Direito vigente na época.. Conforme as Construções Primeiras do Arcebispado da Bahia, religiosos não poderiam ser julgados pela Justiça Secular, sob pena de excomunhão de autoridades. Senão vejamos;


" Livro III. Título III

Como as Justiças seculares não podem prender as pessoas ecclesiásticas, salvo em flagrante felicito


646. Conformando-nos com os Sagrados Canones defendemos, e prohibimos estreitamente a todos, e a cada um dos Corregedores, Ouvidores, Julgadores, Juizes, Meirinhos, Alcaides, e quaesquer outros Ministros da Justiça secular, de qualquer estado, e preeminencia que sejão, sob pena de excommunhão maior 'ipso facto incurrenda', e de vinte cruzados, que não prendão per si, ou por outrem per quaesquer crime, ou delictos, posto que lhe constem deles por devassas, summarios, ou qualquer outra via a Clerigo algum de Ordens Sacras, ou qualquer outra pessoa Eclesiasticca, que conforme direito Canonico, e Sagrado Concílio Tridentino goze, e deva gozar do privilégio clerical, salvo achando-o em flagrante delicto, em que por direito deva ser preso, porque neste caso o poderão prender para logo o entregarem, e remetterem ao nosso Vigário Geral. E quanto ao que forem achado com armas, e vestidos deffesos, se guardará o que fica dito no livro 3, num. 433."


Como se vê, só poderiam ser presos pela Justiça Secular em flagrante delito e mesmo assim deveriam ser entregues à autoridade eclesiástica. Muito raramente cumpririam pena em prisões (aljube), conforme se depreende das próprias Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia:


"Título XV

Que os clérigos não sejão presos no aljube só por casos muito graves 

679 . Ordenamos, e mandamos, que as Dignidades, Conegos, Prebendados, e meios Prebendados, e os Vigários collados de nosso Arcebispado, e os outros Clérigos de Ordem Sacra, que se o não forão, tinhão homenagem sendo leigos conforme a qualidade de suas pessoas, e os que forem lettrados, graduados em Theologia, ou Cânones, não o sejão presos no aljube, nem em outra cadêa pelos crimes que lhe forem accusados, e o serão somente sobre homenagem,  que lhes será tomadas em suas casas, ou na Ciidade, e lugares onde viverem, conforme a qualidade do delicto, e segundo parecer ao nosso Vigário Geral;

680. E nos crimes mais graves, e atrozes, porque mereção, (sendo provados), pena de degredo perpétuo, ou temporal para galés, Angola ou São Thomé, e privação de seus Benefícios, poderão ser presos no aljube, e também quando a prisão lhes der em pena de delicto, condennando-os que estejam presos tantos dias, ou que paguem, presos do aljube, ou havendo temos provável de poderem, fugir da homenagem, ou finalmente quando estiverem presos sobre ella, a quebrarem, porque no tal caso não lhes será concedida outra vez."


E o Frei? Será que foi preso? Será que foi condenado? Ele foi julgado pela Ordem dos Franciscanos em Salvador, mas não irei adiantar aqui qual foi o veredicto. 

Deixarei para o próximo texto após conseguir cópia da sentença que foi publicada na Revista do Instituto Histórico da Paraíba, 1971, n. 19, por Otacílio Nóbrega de Queiroz. Mas como diz Biu Ramos "o julgamento não passou de uma farsa vergonhosa".

Como dito, a única testemunha do crime contra Thereza foi sua filhinha Anna. Segundo o Promotor de Justiça Arlindo Delgado me informou, Anna viveu até os 90 anos de idade com a alcunha Ana Rebolo, porque foi "rebolada no mato" no momento em que a mãe era morta. Foi jogada, "rebolada" na mata próxima da fonte, ficando inconsciente até a chegada de populares naquela manhã de 31.07.1801.


Laura Berquó