Os Estudos Globais, ou Globalogia, são uma área interdisciplinar do conhecimento que têm como proposta a análise de fenômenos que não se limitam apenas a serem transnacionais ou internacionais, mas que tenham impactos globalizantes, fenômenos resultantes do processo de globalização. Os Estudos Globais são uma área de estudo recente, tendo começado a se desenvolver a partir da década de 1990 em universidades europeias, asiáticas, no Egito e americanas. No Brasil, a Universidade de Brasília possui um Centro de Estudos Globais vinculado ao Instituto de Relações Internacionais (IREL). Segundo José Eduardo Franco e João Relvão Caetano, houve um surgimento recente de programas dedicados aos Estudos Globais em países de língua e cultura anglo-saxônicas. Ressaltam também, a natureza de interconexão dos fenômenos globais entre culturas, povos, religiões, territórios. Conforme Mark Juergensmeyer, no verbete Global Studies disponível em The Encyclopedia of Global Studies, as ciências que concorrem para essa nova área interdisciplinar, que tem como foco o fenômeno da globalização, são: a sociologia, economia (considerando os sistemas econômicos e as economias mundiais), a ciência política (sistemas políticos) e sistemas culturais. Essas áreas são analisadas de forma interligada, pois não é possível entendermos o processo de mundialização ou globalização sem interculturalidade, sem trocas, sem entendermos a conexão entre esses diversos sistemas diferenciados em escala global. Ainda, segundo Mark Juergensmeyer, embora a área do conhecimento denominada Estudos Globais seja recente, o estudo do fenômeno da interculturalidade, da mundialização de sistemas econômicos, políticos, etc, não é recente, remontando à Weber e Durkheim, por exemplo, quando do estudo da análise comparada de sistemas religiosos e da expansão do modelo burocrático de gestão estatal, respectivamente. Também cita Marx que ao explicar o funcionamento do capitalismo, demonstrou a sua força globalizante. Ressaltamos que nosso entendimento é que a globalização e o capitalismo não podem ser dissociados, haja vista sua origem nas Grandes Navegações do século XIV. Os Estudos Globais, pela sua interconexão com o conhecimento da história, da economia, ciência política e sociologia, estão voltados para o entendimento das estruturas que se fazem hegemônicas e entendo que seja nessa perspectiva de mundialização e não de simplesmente transnacionalização, que devemos entender a globalização como produto do capitalismo e colonialismo, bem como de natureza contestatória a eles: regimes políticos que ascendem, como a (re)ascensão da extrema-direita na América do Sul, EUA, Israel e Europa; expansão de um modelo hegemônico do próprio capitalismo, no caso o neoliberalismo que ressurgiu com força a partir de 2015; imposição do modelo gerencial de Administração Pública a partir dos anos 80, substituindo gradativamente o modelo burocrático weberiano; os movimentos identitários; movimentos sociais e crescimento do Terceiro Setor em nível mundial; o reconhecimento das epistemologias do Sul Global, a partir da contribuição dos estudos de Boaventura de Sousa Santos. Inclusive, a partir disso, pode ser contestado o conceito de Globalização, como sendo na verdade um projeto hegemônico de Ocidentalização do Mundo, mais precisamente, de hegemonia eurocêntrica. Ocorre que outros atores têm se consolidado no cenário mundial desde o século XX, falando-se atualmente em “globalizações” e não somente no modelo de globalização hegemônica eurocêntrica. Ninguém poderá, nos dias atuais, subestimar a China, por exemplo, e que o fenômeno chinês repercute globalmente na economia e na ciência política. Culturalmente, vemos também a expansão dos Doramas e artistas pops sul-coreanos, bem como de seus produtos para o mercado de consumo da área de estética, assim como outros países asiáticos. Importante ressaltarmos que são diferentes os conceitos de mundialização, transnacionalização e internacionalização, sendo o de mundialização mais adequado à ideia de globalização, haja vista que alguns acontecimentos podem ser internacionais ou transnacionais, porém, não atingirem uma escala global. Os Estudos Globais, e a partir disso que é desenvolvida a sua epistemologia, cuidam da análise dos fenômenos hegemônicos globalizantes, sejam eles sob o aspecto econômico, sociológico, político e cultural, porém, sempre interligados. O estudioso do processo da globalização ou globalizações foca na interseção, naquilo que se torna comum, compartilhado, ainda que sob uma força irresistível, por serem processos hegemônicos, mas que encontra um ponto de diálogo comum entre o local e o global. Nesse sentido, nasce o novo conceito de cidadão global, de cidadania global que é justamente aquela que permite, justamente, desenvolver essa competência e habilidade de diálogo e “leitura” das diversas identidades, culturas, realidades, estruturas compartilhadas em nível global. Pedro Abrantes e Elsa Lechner, na introdução da obra “Nós Globais. Investigações em Curso sobre Questões da Globalização” trazem o aspecto humano do fenômeno globalizante, a partir da necessidade do cientista em Estudos Globais ser capaz de “ler” experiências com potencial globalizante, mas que revelem ao mesmo tempo as desigualdades sociais e populações vulneráveis dentro desses processos, e traz algo recente, que foi a pandemia do novo Coronavírus, que teve essa dimensão, que ao mesmo tempo que foi um evento global, expôs ao mesmo tempo as desigualdades existentes na forma que diversas realidades tiveram que lidar com a doença, fazendo com que eu me reporte mais uma vez a Boaventura de Sousa Santos e seu ensaio ‘A Cruel Pedagogia do Vírus’. Estudar como fenômenos globais podem ampliar fossos entre realidades diversas e populações vulneráveis é um campo interessante e que requer, apesar do distanciamento pessoal que se exige do cientista, o sentimento de alteridade, do ver o outro e posto, por isso, a citação indígena maia feita por Pedro Abrantes e Elsa Lechner: “In lak’hesh. Hala k’in./Eu sou outro tu. Tu és outro eu.” E nesse mesmo diapasão, prosseguem, citando Achille Mbembe, quando mais uma vez, em virtude dessa falta de alteridade, são criados os “indesejáveis”, pessoas que são invisibilizadas e expropriadas da própria existência. Bom ressaltar ainda, fazendo inferências da leitura de Abrantes e Lechner, que essa nova etapa do processo de globalização que se viu a partir da expansão dos meios de comunicação e transportes no século XX e XXI, aumentou os fluxos imigratórios entre populações vulnerabilizadas, e, ao mesmo tempo que houve um avanço das comunicações virtuais, em que vivemos em um mundo cada vez mais digital, existem populações marginalizadas, em áreas de conflitos transnacionais ou nacionais que não têm acesso ainda a esses avanços tecnológicos, às redes, à uma vida digital e de integração ao mundo global. José Eduardo Franco e João Relvão Caetano, ao citarem o conceito de ‘Aldeia Global’ de Marshal McLuhan, apontam para a necessidade de uma leitura do mundo que não se concentre a partir da própria realidade nacional, voltada para o próprio umbigo, mas que seja feita a partir de uma metodologia heteronômica e heteróclita, ou seja, uma metodologia que possa dialogar com o que está além da própria realidade imediata, local, nacional, analisando a partir de um aspecto externalizante, diferente, estranho a si mesmo. Nesse movimento de se voltar para fora, não há como nos dissociarmos tanto da “leitura” do outro no mundo, como do meio-ambiente sustentável para o próximo e demais espécies, a partir dos fenômenos globalizantes. Lembro, agora, do conceito de “Oikoumene” tratado por Toynbee em ‘A Humanidade e a Mãe Terra”. A Globalogia (Estudos Globais) requer de seu cientista uma abertura para o outro, uma alteridade necessária para saber ler o que acontece, a partir de uma experiência hegemônica com potencial globalizante, e a repercussão que esses fenômenos podem ter em vidas e territórios locais. Partindo sempre de uma análise interdisciplinar e interconectada, o Globalista tem a possibilidade de ler o “mundo” a partir de experiências que partem de um determinado ponto e que podem se tornar experiências globais. Saber “ler” de forma além da própria realidade imediata, regional, nacional. Conseguir conectar as diversas realidades e como elas podem interagir entre si, de forma que ocupem espaços materiais e imateriais, além do que consideramos acontecimentos transnacionais, mas de fato mundiais, que atinjam todo o globo, é a habilidade e competência que se exige em Estudos Globais.
Laura Berquó
Referências:
FRANCO, José Eduardo Franco e CAETANO, João Relvão (Coordenadores). Globalização como Problema. Temas de Estudos Globais. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020.
JUERGENSMEYER, Mark e ANHEIER, Helmut K. The Encyclopedia of Global Studies. Vol. 2. SAGE Publications, 2012.
ABRANTES, Pedro e LECHNER, Elsa (Coordenadores). Nós Globais. Investigações em Curso sobre Questões da Globalização. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022.





