terça-feira, 22 de setembro de 2026

A VIÚVA NEGRA

 

A VIÚVA NEGRA


Todos os dias agradeço pelo fato do meu pai ter morrido, enquanto eu era relativamente nova e não tinha perdido totalmente a minha saúde mental. Não guardo afetos de pessoas que não me respeitam. Sejam parentes ou ex-amores. Desde criança sou rancorosa e vingativa. O rancor sem vingança é perda de tempo. Sou assim desde muito pequena. É um traço da minha personalidade. Não nasceu de trauma nenhum. Se eu tivesse tido uma infância tranquila também seria assim. Meus primeiros revides, eu tinha meus 3 anos de idade e nessa época ainda era feliz. Fui feliz até os 5 anos. Aos 6, comecei a entender o mundo à minha volta e comecei a ter os primeiros episódios de depressão. Mas quando você não pode se vingar? A resposta está no desprezo. O desprezo tem o mesmo efeito que a vingança em quem se importa ao recebê-lo, embora, não seja o objetivo em si. O desprezo é um favor, é um amadurecimento, é um estágio em que você diz a você que aquilo não dói mais como antes e também você não sente afeto, nem de amor, nem de ódio. O desprezo tem que ser um sentimento e não um jogo. Semana passada recebi a notícia de um ex que morreu. Queriam me forçar o choro e o lamento, porque toda mulher que amou um dia fica bem nesse lugar. Não sou carpideira de quem só me fez perder sempre um pouco da ilusão. Eu só senti um grande desprezo pela figura. Como já havia sentido antes por um outro que também morreu. Como também por um outro também.  Já eram 03 agora. Não sou coveira. Mas entendi o que é ser uma "Viúva Negra", que devora, antes de ser devorada e responde com um grande escarro às bocas que beijou.


Laura Berquó

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