Para a formação do Quilombo dos Palmares, ainda no século XVI, concorreram escravizados de origem angolana na Bahia e pessoas indígenas escravizadas. Segundo o romance histórico de Domingos Jaguaribe Filho, “Os Herdeiros de Caramuru”, por ser um quilombo formado por pessoas indígenas e negras vindas da Bahia na direção norte ao rio São Francisco, para que indígenas e negros pudessem chegar a um acordo sobre a liderança, foi nomeado como chefe o líder indígena Jaracahepó, morrendo bem idoso no ano de 1600 e sendo substituído pelo ex-escravizado Roque, que passou a ser chamado de “Zambi” e até o fim de Palmares, pelo menos 04 Zambis (Zumbi?) assumiram a liderança.
Rio de Janeiro, Pernambuco e Paraíba receberam pessoas negras escravizadas de Angola em maior quantidade, fazendo crer que os negros que vieram para o Brasil fossem majoritariamente de origem bantú.
Na obra publicada postumamente em 1932, ‘Os Africanos no Brasil”, Nina Rodrigues rebate a ideia geral, de que a maioria das pessoas negras escravizadas em todo país fosse de origem angolana, embora tivessem sido os primeiros. Embora seja um nome problemático, não se pode olvidar a contribuição de Nina Rodrigues com estudos pioneiros em ‘Os Africanos no Brasil’ e “O Animismo Fetichista dos Negros Bahianos" (1896) sendo esta no Brasil a primeira sobre religiões de matrizes africanas (1896).
Nina Rodrigues, ‘Os Africanos no Brasil’, diz que no Brasil os etnólogos tinham por costume afirmar que os bantus (Angola, Congo e Moçambique) colonizaram o país. Ainda alguns davam como certa a colonização por pessoas escravizadas vindas da “África Meridional e às ilhas do Golfo de Guiné” complementa:
“Para eles, dos Congos, Cabindas e Angolas na Costa Occidental da Africa, dos Macúas, e Anjico, na Oriental provieram todos os Africanos brasileiros. Também se referem às precedências de Cacheo e Bissáo para os Negros de Pernambuco, Maranhão e Pará, naturalmente mais conhecidos pela historia da Companhia de Commercio do Grão-Pará e Maranhão, com quem foi feito o contracto da introdução destes negros. Mas nem destes, nem dos procedentes das ilhas de Fernando Pô. Príncipe e São Tomé e Anno Bom a que também aludem, convenientemente se occuparam” (1935: p.38)
Sobre a vinda de escravizados traficados de Bissau e “Cacheo” (cidade de Guiné-Bissau) pela Companhia de Comércio do Grão- Pará e Maranhão, Nina Rodrigues se refere à Companhia criada pelo Marques de Pombal em meados do século XVIII. Porém, foi no período da invasão holandesa nos estados do Nordeste, que durou entre 1624 a 1654, que foram introduzidas no Brasil pessoas negras traficadas da região da Costa da Mina (Golfo de Guiné) e da antiga Senegâmbia, com a criação da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, conforme Zilma Ferreira Pinto, na obra ‘A Saga dos Cristãos-Novos na Paraíba” de 2002, embora também continuasse com o tráfico de pessoas negras de origem angolana.
E esse provavelmente é um dos méritos do estudo de Nina Rodrigues sobre as nações dos escravizados africanos, por ter justamente observado o que escapou aos demais etnólogos as nações “sudanesas”. Nina Rodrigues prossegue afirmando:
“Mal se concebe como os Negros sudaneses tivessem escapado à sagaz observação de Spix e, que, a proposito da Bahia. Se occuparam do trafico africano e estiveram nesta província precisamente no tempo em que dominavam aqui os Sudanezes.· Como veremos, não tem a menor applicação aos Bantús, Auzazes e Schéschés os levantes de escravo que lhes attribuem Spix e Marfius. Ao conttrario vivia a Bahia por aquelles tempos sob a pressão dos repelidos levantes dos Haussas, Nagôs e outros sudaneses.” (1935: pp. 38-39)
Para melhor esclarecimento, os “sudaneses” referidos nos estudos etnológicos sobre povos da diáspora africana, não são as etnias naturais do Sudão e do Sudão do Sul, mas povos da região do Sahel, da África Ocidental, dentre eles os haussás (sul do Níger e norte da Nigéria).
Como explica Nei Lopes em sua Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana:
“SUDANESES. Designação arbitrária dada aos povos africanos localizados à Oeste, entre o Saara e o Camarões. Diáspora nas Américas: Entre 1680 e 1786, cerca de 2 milhões de escravos referidos como ‘sudaneses’ foram trazidos para as Américas pelos traficantes europeus.” (2004: p. 634)
Nina Rodrigues, ao falar sobre a invisibilidade das pessoas negras de origem “sudanesa”, cita que grandes intelectuais do século XIX, a exemplo de Silvio Romero, que há muito reclamava da falta de dedicação e estudo dos etnólogos brasileiros sobre os negros africanos no Brasil, afirmava que a população de origem negra do país era majoritariamente de origem angolana.
“A esta desigualdade na procedência dos Negros introduzidos na Bahia, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, se há de atribuir, parece, o engano de escritores avisados como Sílvio Romero e João Ribeiro. Os estudos e observações de ambos particularmente se referem a Pernambuco e Rio de Janeiro e do que ali observaram foram provavelmente induzidos a generalizar, para todo o país, o predomínio da gente bantu. Tão errôneo, todavia, como supor que os Negros bantus predominaram em todo o país, seria concluir-se do que aqui deixamos apurado, que só na Bahia tivessem tido ingresso os Negros sudaneses. Um documento do século XVII é bem positivo sobre a existência, em Pernambuco, de Negros desta procedência. É a carta que Henrique Dias escreveu em 1648 aos Holandeses e a que pertence o trecho seguinte citado pelo Dr. Pereira da Costa, a quem o tomo: “De quatro nações se compõe este regimento: Minas, Ardas, Angolas e Crioulos: estes são tão malévolos que não Temem nem devem; os Minas tão bravos, que aonde não podem chegar com o braço, chegam com o nome; os Ardas tão fogosos, que tudo querem cortar de um só golpe; e os Angolas tão robustos que nenhum trabalho os cansa. Considerem agora se romperão a toda Holanda homens que tudo romperão.” Neste documento, a denominação genérica de Angolas designa todosos bantus; Minas seriam os Nagôs, Fantis e outros. Pelo que toca aos Negros que Henrique Dias chama Ardas, por Ardras claramente se deve corrigir o nome, e neles se descobrem Negros gêges ou dahomanos. O antigo reino de Ardra, próximo a Abomey, capital dos Dahomanos, constituiu, há séculos, um afamado empório do tráfico ingreiro, onde osEuropeus haviam estabelecido importantes casas de comissão”. (2010: pp.41-42)
No século XVIII, a população se apresentava da seguinte forma, conforme informações de Nina Rodrigues e de Juliana Barreto Farias et alli, na obra “Cidades Negras. Africanos, Crioulos e Espaços Urbanos no Brasil escravista do século XIX. Nina Rodrigues traz informações com base em Santanna Apolônia (1798).
POPULAÇAO BRASILEIRA.
“1798:
Brancos . 1.010.000
Índios 250.000
Libertos 106.000
Pardos escravizados 221.000
Negros escravizados 1.361.000
Total 3.250.000”
Iniciou-se a escravização de pessoas negras em 1538 com 36 vítimas e em 1798 já eram 1.582.000, em 260 anos. Isso para percebermos a violência do tráfico transatlântico. Para entendermos essa violência que durou até o século XIX de forma oficial até a Lei Feijó de 1831 e, posteriormente com a Lei Eusébio de Queiroz de 1950, devemos nos ater aos registros de estudiosos a exemplo de Manoel Querino que conversou com diversos idosos de origem africana traficados antes da proibição. Em início do século XX.
Faço aqui o registro de que deve ser considerada racista a fala de que os próprios negros escravizavam outros negros para vendê-los, no caso, com intermediação dos Sobas. Não que não fosse verdade. Mas essa fala é usada como justificativa para menosprezar o tamanho da violência praticada por colonizadores e para isentá-los de culpa. E é racista por uma razão muito simples: se uma criança branca é atraída com doces para ser sequestrada e desaparecer de sua família, alguém olha a cor branca ou não-branca do sequestrador? Se o grande capital resolve atrair com promessas falsas de emprego e reduzir à condição análoga a de escravos trabalhadores, alguém irá dizer que esses empresários são brancos se todos forem da mesma cor? A vítima será sempre vítima, independente de quem faça a intermediação para o traficante e as pessoas que se beneficiarão do trabalho dessas pessoas ou do tráfico de crianças desaparecidas, serão também culpadas. Por que com crianças e lavradores africanos vítimas do tráfico negreiro seria diferente?
Manoel Querino, em A Raça Africana e Seus Costumes, informa o seguinte sobre o sequestro de crianças para serem traficadas:
“Diferentes eram os meios empregados na captura e apreensão de crianças e adultos, nos ínvio dos sertões do continente negro. Autorizados pelo Sova, governador local, que participava das proventos do negócio e por isso entendia-se diretamente com os negreiros, exercendo ativa vigilância na costa para evitar a ação dos cruzeiros que vigiavam os mares, os traficantes de carne humana lançavam mão de toda a sorte de simulações, conducente aos fins que visavam As crianças começavam por entretê-las com frutos, acassás, acaragés, pipocas e outras iguarias
atraindo-as para lugares ermos e distantes, entre cantigas e dansas. Ao anoitecer, os incautos, longe de suas choupanas, desconhecidos os caminhos, impossibilitados de voltarem, eram entregues aos mercadores.” (1916: p. 25)
E com os adultos traficados, como eram as formas de sequestro? Também se utilizavam artifícios e engodos para aproveitar da boa-fé dos traficados, haja vista que diferente da narrativa de que todos eram vencidos em guerras tribais, na verdade, o ardil era bem pior. Informa ainda Manoel Querino:
“Com os adultos, variavam o processo da cilada: improvisavam-se mercados, e quando havia muita gente reunida davam o cerco, e bem poucos eram os que escapavam. Outras vezes, procuravam trabalhadores para o amanho da terra, mediante rendoso salário; depois de alguns dias surgiam os agenciadores que se apoderavam, à viva fôrça, dos incautos negros. Em outras ocasiões, os interessados induziam os caçadores de homens livres a promoverem festas que, de ordinário, se efetuavam à noite. Em dado momento, surgiam os agenciadores a tocarem gaitas, a cantarem e a baterem palmas. Os que se divertiam, segundo combinação prévia, vinham ao encontro dêles, e nesse momento fingiam uma agressão, que degenerava logo em conflito. O grupo assaltante amarrava os prisioneiros e conduzia-os à presença do Sova que, imediatamente os remetia aos compradores, a trôco de fumo, aguardente, missangas, pano de algodão, espingardas e fardas velhas, facas, etc. Além disso, os próprios africanos vendiam-se uns aos outros: e nêste caso,
as crianças furtadas eram logo marcadas com a tatuagem da tribo a que iam servir.” (1916: 26- 27)
Antes de passarmos para o próximo sub-tópico e explicarmos como surgem as primeiras casas de Candomblé no Brasil no século XIX, tendo como primeira a do Engenho Velho em Salvador, pelo número apresentado em 1798 de mais de 1.582.000 pessoas negras e pardas escravizadas e 106.000 libertos, totalizando mais da metade da população brasileira, realmente prosperará a afirmação de que o candomblé é uma invenção brasileira? Será que essas pessoas não trouxeram de suas terras de origem o conhecimento ancestral e religioso de seus povos? É o que passaremos a discorrer no próximo post sobre o assunto.
Laura Berquó

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