sábado, 24 de outubro de 2026

POR QUE ANA CLARA NÃO COMOVE QUEM VOTA 22? O PACTO NARCÍSICO E A NECROPOLÍTICA




 Uma coisa que sempre pontuo é que há uma questão no mundo branco adultocêntrico, que não é verbalizado, porque faz parte do pacto narcísico da branquitude. Este pacto existe, como bem colocado por Cida Bento, e tem aparecido em algumas manifestações políticas, conforme irei expor. Enquanto crianças negras (pretas e pardas), periféricas, pobres, etc, são vítimas do mundo adultocêntrico, independente de terem lares disfuncionais ou não, pois sofrem com a violência estrutural ou institucional, no mundo branco adulcêntrico e burguês, essas violências acontecem da porta pra dentro das casas. Se omite, por conta do pacto narcísico, a violência branca e de classe contra crianças, até Leandros, Isabelas e Henrys serem assassinadas por seu próprio círculo. Aí, há em parte essa comoção de todos,  como se não soubéssemos que existem lares brancos disfuncionais, porque o racismo e o classismo querem passar a ideia que somente lares não-brancos e periféricos, ou humildes, são necessariamente disfuncionais. Como me lembrou bem o Prof. Ricardo Lucas Camargo, certos criminosos brancos, burgueses, são dados com algum tipo de transtorno. O pobre seria criminoso mesmo. E é esse pensamento que faz, provavelmente, com que candidatos que perderam seus filhos e foram eleitos, apóiem candidato que se alinha, pelo discurso, à necropolítica, à defesa e honrarias a milicianos. Não estou aqui para revitimizar pessoas que perderam filhos. Estou chamando a atenção que Anas Claras existem, mas não causam comoção na classe média burguesa que votará 22, porque para que isso aconteça, precisa ocorrer um processo de conscientização, de reconhecimento de privilégios e promover o chamado suicídio de classe, cujo conceito nos legou Amilcar Cabral. A dor precisa ser decolonizada. E nesse sentido, acabo por me acostar à ideia de Dororidade de Vilma Piedade, porque não basta ser mãe, mulher, irmã , filha , etc se a dor de outras mulheres não desperta em você alteridade fora da sua realidade.

Como diz Judith Butler, algumas vidas não se choram, não se permite o luto, não importam.


Laura Berquó

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