quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A MULHERIDADE BRANCA BURGUESA: QUEM FAZ O TRABALHO SUJO?

 



Eu poderia repetir o questionamento de Françoise Vergès sobre quem limpa a sujeira do mundo ?, de seu livro Feminismo Decolonial. Mas não é a sujeira de sujidades, mas sim o tipo de serviço que mulheres brancas (ou lidas como brancas) burguesas costumam delegar a terceiros em tom de ordem. As sinhás da atualidade são muitas, e sendo brancas, ou lidas assim, encontram-se tanto na direita, como na esquerda e, atualmente, na extrema-esquerda. Darei alguns exemplos: uma senhora, a fim de me perseguir, pediu que uma colega, com menos status no lugar que ela, iniciasse a perseguição. O outro exemplo que posso citar é que ao tratar de um caso de assassinato na Paraiba, como conselheira de DH, a mãe da vítima aguardava que outras pessoas tomassem a frente nas denúncias na mídia e nas exposições, porque não ficava bem para uma mulher da classe social dela, qualquer manifestação mais acalorada. Há outro caso, interessante, que uma senhora incomodada com minhas postagens em grupos de whatsapp, foi pedir a terceiros que me tolissem, aguardando que seu pedido = ordem, fosse acatado. Em outro episódio, em grupo também de whatssap, uma administradora queria que eu apagasse a postagem de um integrante sobre propaganda política  de um candidato que ela não vota, com o argumento de que não podia fazer campanha lá. De fato, não podia. Então, por que ela mesma não apagou, se era autorizada? Queria que eu, como criadora do grupo, fizesse o que ela poderia fazer, para reafirmar o seu poder. Lógico que não apaguei. Quem se incomoda e está autorizado, que resolva. Mas a mulheridade branca burguesa segue delegando em tom de ordem, aquilo que ela pode fazer, para manter sua posição intocada. Outros que se sujem e se cansem. É essa a lógica de quem acha que está para ser servida. Há uns anos cuidei de um caso de uma mulher africana, vítima de tráfico e redução à condição análoga de escravo. Mesmo a empregada estando doente, e recém cirurgiada, a mulher (do casal que a trouxe), queria mandar buscá-la do repouso pós-cirurgico para limpar o vômito do filho pequeno.  Outros que façam o serviço sujo por elas. É assim a mulheridade branca burguesa. E merecem toda crìtica do mundo sim. Muitas delas, inclusive, são contra programas sociais para que mulheres pobres voltem a faxinar suas casas em troca de um prato de comida, poucos trocados e algumas roupas velhas bondosamente doadas. A mulher branca burguesa só se vê abaixo das estruturas patriarcais brancas e, sem identidade individual, sente-se feliz em ser extensão do falo branco na estrutura de poder.

Laura Berquó

Nenhum comentário:

Postar um comentário