sábado, 18 de julho de 2026
OS HERDEIROS DE CARAMURU: O ROMANCE HISTÓRICO QUE POUCOS CONHECEM - VOLUME I
"Os Herdeiros de Caramuru" é um romance histórico de autoria do médico e político cearense Domingos Jaguaribe Filho, escrito no ano de 1880, portanto, final do romantismo brasileiro. Escrito em 02 volumes, insere-se, como gênero literário, no primeiro período romântico, nacionalista e indianista, embora, tenha sido publicado no final do terceiro período. Temos como foco a vida de Caramuru, o jovem português de família nobre, cujo nome era Diogo Álvares Correia, que aproximadamente em 1512, quando ia para São Vicente, naufragou na atual cidade de Salvador, não sendo assassinado pelos Tupinambás, como os demais companheiros a bordo sobreviventes, pelo fato de Paraguassú, filha do Morubixaba Taparica, ter por ele se apaixonado, abandonando o compromisso de se casar com outra liderança indígena de nome Jararaca, o que causaria, anos depois, brigas e rivalidades entre os grupos. Diogo foi chamado pelos Tupinambás de Caramuru-Guassú, Dragão do Mar, por ter feito uso da pólvora, até então desconhecida naquela região pelos naturais do lugar e por isso, passou a ser reverenciado e aumentado o prestígio de seu sogro. O romance, além de mostrar o nascimento inoficioso do que hoje é a Bahia, passando pela concessão da capitania em 1534 a Francisco Pereira Coutinho até a vinda de Tomé de Souza em 1549, trata também de relatar o início do tráfico de pessoas indígenas e negras africanas escravizadas. O galeão Bretoa, tendo como um dos integrantes da tripulação Fernando de Magalhães, foi o primeiro transporte que em 1516 iniciou o tráfico de grande contingente de pessoas indígenas escravizadas no Porto dos Escravos, hoje São Vicente, tendo depois Caramuru se envolvido com tráfico de indígenas escravizados devido contatos realizados com traficantes de pau -brasil e de pessoas indígenas, no período que esteve na França. Inclusive, o romance traz uma segunda carta de Pero Vaz de Caminha narrando os costumes antropofágicos dos povos originários, carta está datada de 01.05.1510, anterior, portanto, ao início do tráfico de indígenas escravizados. O negócio teve prosseguimento através de seu genro Afonso Rodrigues, casado com Magdalena Caramuru, filha de Caramuru e Catarina Paraguaçu. Magdalena é a grande heroína da história, e simboliza o nascimento do Brasil mestiço do sangue português com o indígena. Magdalena foi a primeira mulher alfabetizada no Brasil, inicialmente por seu pai, depois pelo marido e aprimorada pelos Jesuítas. Por ter acesso pela leitura de relatórios de bordo e cartas de jesuítas, em especial de Padre Manuel da Nóbrega, foi uma grande militante contra a escravização e maus tratos de indígenas e negros africanos. Inclusive, a obra registra o início do tráfico negreiro com a vinda do traficante de pau -brasil e de pessoas indígenas, Jorge Lopes Bixorda, que em 1538 trouxe 36 africanos de Angola. Magdalena se opunha a isso, sendo, provavelmente, a primeira militante do Brasil a se opor contra a opressão de raça e cor, tendo problemas com o pai e o marido, retratado como um homem extremamente cruel. A história prossegue relatando a insurgência de nomes contra os maus-tratos da escravidão, relatando o surgimento do Quilombo dos Palmares a partir da fuga em direção ao Rio São Francisco de indígenas e negros escravizados pelos genros de Caramuru, a exemplo de Jaracahepó, indígena escravizado, que liderou revolta no engenho de Afonso Rodrigues, e que por acordo entre negros e indígenas se tornou o primeiro líder de Palmares até 1600, ano de sua morte, e substituído por Roque, intitulado "Zambi" (Zumbi?), negro idoso que trabalhava no referido engenho do genro de Caramuru. Após Roque, narra o romance que Palmares teve mais 04 "Zambis", antes da destruição do Quilombo por Domingos Jorge Velho. O romance ainda retrata como pessoas inocentes, indígena e negra, eram condenadas à forca, através da manipulação da opinião pública. Finaliza o romance com a história do Capitão Lascoeva, vitimizando-se na Espanha de ter sido escravizado no Brasil, o que não aconteceu, como forma de não prestar contas de seu desaparecimento por anos após um furto que cometeu. Assim termina o volume I.
Laura Berquó
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