segunda-feira, 17 de agosto de 2026

MEMÓRIAS DA RUA DO OUVIDOR POR JOAQUIM MANUEL DE MACEDO - PARTE 1

Neste post vamos começar a falar da obra que trata da comemoração dos 100 anos da Rua do Ouvidor de autoria do memorialista Joaquim Manuel de Macedo, ele mesmo, o autor de "A Moreninha". A obra escrita em 1880 intitulada "Memórias da Rua do Ouvidor", trata da origem da rua com narrativa própria do romantismo, embora já no realismo. O interesse pela obra se deve ao fato particular de eu sempre ser questionada se descendo do Ouvidor Francisco Berquó da Silveira, que a partir de 1780 deu novo nome ao famoso logradouro. A resposta é que o Ouvidor é um primo mui mui distante, sendo na verdade, sobrinho de um antepassado meu. Logo, não descendo dele. Mas descendo de outra figura que deu nome à artéria em questão e sobre o qual o mito fundador próprio do romantismo e pela falta de informações mais precisas, fez com que Macedo recriasse uma suposta memória do lugar. Até hoje a rua do Ouvidor parece exercer uma atração nas pessoas e que segundo Macedo se deve ao fato de que o sobrenome Berquó é anagrama de "Quebro", fazendo com que a rua "quebre" e "requebre" a todos para que cedam aos seus encantos. Hoje irei me ater aos 3 primeiros capítulos para algumas explicações históricas. A rua do Ouvidor foi provavelmente a terceira rua da cidade do Rio de Janeiro, após a Rua da Misericórdia e a Rua Direita (atual 1° de Março), sendo aberto um desvio após a rua Direita e o antigo Largo da Polé (Praça XV), entre 1568 e 1572 que ficou até o ano de 1590 conhecido como Desvio do Mar. Essa área tinha sido dada em sesmaria ao meu décimo-terceiro avô Aleixo Manuel Albernaz, o Velho. É aí que ficção e realidade se misturam na obra de Macedo. De fato, a partir de 1590 a rua ficou conhecida até meados do século XVII como Caminho/Rua do Aleixo Manuel, sendo inicialmente uma fileira de casas de um lado só, haja vista que o outro era voltado para a praia, onde moças casadoiras iam pescar acompanhadas de suas parentes mais velhas, para exibirem os belos rostos sob mantilhas. Na obra, Macedo diz que Aleixo Manuel era um barbeiro e tipo um boticário de fidalgos. É possível. O que não bate é a informação de que teria ganho algum dinheiro combatendo Tamoios, embora, de fato, fosse um dos homens mais ricos da cidade, sendo no entanto, na obra descrito como um homem de posses moderadas. Quem ganhou sesmarias combatendo Tamoios foi, na verdade, o Botafogo (meu décimo-segundo avó). Mas voltemos à rua. Segundo Macedo, Aleixo Manuel, já um cinquentão, teria se apaixonado por uma "mameluca" de 17 anos de nome Inês, sua escravizada de beleza fatal, e com ela contraído núpcias. Que ele não teria deixado herdeiros. A história não bate, porque Aleixo Manuel Albernaz, o Velho, casou-se em 1572 com Francisca Homem da Costa e com ela teve pelo menos 06 filhos, sendo uma delas Inês, nascida em 1584 e no suposto período em que teria se casado no enredo com a "mameluca" Inês, na vida real, o casal Aleixo e Francisca concebeu minha décima-segunda avó Beatriz Homem da Costa. O fato é que Macedo, como todo bom romântico, inventou um mito fundador para a Rua do Ouvidor e Aleixo Manuel e Inês cumprem bem isso na história. Ainda, prosseguindo sobre informações, nos três primeiros capítulos, Macedo explica como a rua do Ouvidor se estendeu até a Rua da Vala (Rua Uruguaiana), sendo o referido local considerado arrabalde da cidade em pleno final do século XVII. Sobre a Rua Uruguaiana, aquela área do Centro tenha sido dada em sesmaria ao casal Manuel dos Rios e Antônia Rodrigues Sardinha, meus décimo -segundo avós, desde o século XVI/XVII. Os três primeiros capítulos narram como surgiram os primeiros mercados e quitandas da cidade, todas próximas do antigo Largo da Polé e do Caminho de Aleixo Manuel. E antes de ser rua do Ouvidor, após a morte de Aleixo, com o tempo a rua passou a ser chamada de Rua Padre Homem da Costa, não sabendo Macedo maiores informações, senão fatos sobre o padre guloso e casamenteiro que deu novo nome à ilustre artéria. O Padre Homem da Costa vivia na rua famosa, porque era filho de Aleixo Manuel, adotando o patronímico da mãe Francisca. Um pouco mais de 200 anos separavam Macedo dos primeiros personagens da rua, razão pela qual, recorreu à liberdade de criação de memórias, na ausência de maiores informações, baseado em histórias que foram repassadas pela oralidade. Traremos mais considerações sobre essa obra pouco conhecida do autor de "A Moreninha". Pintura de Eduard Hildebrant. Laura Berquó

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