terça-feira, 24 de março de 2026

CASO HENRY BOREL E DIPOLDISMO NA VIOLÊNCIA ADULTOCÊNTRICA


A violência adultocêntrica é a mais antiga do mundo, tenho quase certeza disso. Mais antiga que a misoginia e o capacitismo, ambas concorrendo em igualdade na linha do tempo, para depois termos o antissemitismo (sem esse nome até o século XIX) na Europa a partir do século I d..C. e o racismo contra pessoas negras a partir do século XIV para justificar sua escravização por europeus, a exemplo do que ocorreu sob o comando do Infante Dom Henrique de Portugal. Cronologicamente, eu vejo essa periodização. A violência adultocêntrica é uma herança greco-romana em nossa sociedade ocidental, onde crianças eram vítimas de capacitismo ou estavam submetidas ao direito de gládio do Pater. Como já disse diversas vezes, no patriarcado, segundo Saffioti, a mulher é cúmplice da violência adultocêntrica, por delegação do homem. 

Essa semana todos pararam para ter notícias do Caso Henry Borel, que inclusive deu origem à Lei nº 14.344, de 14 de maio de 2022. O júri, com início previsto para 23.03.2026, foi adiado, segundo informações da mídia, por manobra dos defensores de um dos acusados, no caso, o ex-vereador carioca Doutor Jairinho.

Pelo que vi nas fotos, parece ser um homem de aproximadamente 1,90m. Embora não tenha havido condenação no caso, pelas informações acessadas pelo grande público, o menino Henry Borel foi morto aos 04 anos de idade em março de 2021, em decorrência de mais de 20 lesões causadas, tudo indica, por espancamentos e torturas, tendo como principal suspeito o padrasto Doutor Jairinho, com uma possível cumplicidade de sua genitora, no caso, por omissão.

O caso me faz recordar os estudos sobre parafilias e transtornos parafílicos. Sem ainda termos uma conclusão do Caso Henry, não podemos fazer afirmações. Mas não podemos desconsiderar nos diversos casos de espancamentos de crianças a possibilidade de uma perversão sexual.  O que muita gente não sabe, e inclusive romantiza com lembrança dos tempos em que eram surradas com cinta, chinelos e outros apetrechos que poderiam ser usados em encontros sexuais BSDM, é que existe um transtorno pedofílico que consiste em agressões, torturas e espancamentos de criança, chamado de Dipoldismo. É uma modalidade de sadismo em que o adulto ou adolescentes bem mais velhos sentem excitação e, por conseguinte, prazer em somente espancar corpos infantis. A satisfação da parafilia é decorrente da violência física e não da agressão sexual mesmo como se vê no que conhecemos como pedofilia propriamente dita.

A cultura adultocêntrica é pedófila por excelência e tem no dipoldismo a sua forma mais comum de violência e, ainda por cima, romantizada em discursos saudosistas. Existe ainda o sadismo sexual na omissão por adultos que não reagem às agressões contra corpos tão frágeis, fortalecendo ainda mais a cultura adultocêntrica de violência. Há uma autorização de muitas mulheres para que o direito de gládio no patriarcado continue a ser praticado por pais, padrastos, namorados etc. Também ouvi narrativas de homens espancados na infância por suas genitoras, sob o silêncio de seus genitores.  A violência adultocêntrica é praticada por homens e mulheres. Nesse meio, temos crianças que crescerão futuros adultos com traumas e prejuízos para a vida em sociedade, quem sabe repetindo as mesmas práticas, ou se "ensimesmando" em suas eternas depressões, caso sobrevivam à prática do dipoldismo, tão normalizado e romantizado por algumas gerações que buscaram todo tipo de coação sobre corpos tão frágeis, assexuados e sem possibilidade de defesa.

Laura Berquó

Nenhum comentário:

Postar um comentário