quarta-feira, 27 de maio de 2026
ADULTOCENTRISMO E VIOLÊNCIA
É um tema recorrente, porque para mim é um processo de catarse, a necessidade de falar, colocar para fora, para curar aquela menina. O recolhimento em mim, na minha casa, nos meus afazeres tem o poder de me reconectar com minha saúde mental. Tenho visto notícias esparsas essa semana de um júri amplamente divulgado nacionalmente em que a vítima foi uma criança que morreu aos 04 anos. A comoção chega, porque em lares brancos, de classe média/média alta, tudo é instagramável, menos a violência. No meu tempo de criança, agredir um filho publicamente era uma forma de demonstração de poder do adulto covarde. Hoje, os adultos covardes tentam esconder a agressividade para não terem complicações com a lei. Somente, isso. Quando ocorre um homicídio de criança/adolescente com menos de 14 anos é porque a violência estava lá há muito tempo. Hoje a sociedade cuida, se souber, porque criou-se a cultura de recorrer aos conselhos tutelares que não existiam até os anos 90. Houve uma mudança de visão, que excessos não serão perdoados ou não serão naturalizados. Antigamente, outros adultos ao presenciarem espancamentos de crianças, ainda orientavam seus filhos a fazerem bullying com a criança que apanhou. Eu falo do que posso dizer por experiência. Os anos 80 ainda eram anos moralmente amorais para muito comportamento hoje reprovável. E onde estão as mulheres nisso tudo? A única diferença é que hoje as coisas acontecem da porta para dentro. Diferente das décadas passadas, em que o espancamento de crianças era um espetáculo público. Hoje se tenta fazer isso de uma outra forma. Alguns pais/mães filmam as "correções" duvidosas aplicadas aos filhos e postam nas redes sociais, aguardando aplausos, esperando reconhecimento por se acharem moralmente superiores que a própria cria, reafirmando poder com humilhação.. Para mim deveriam perder o poder familiar. Adultos violentos esperam que os filhos tenham medo como sinônimo de respeito. Os filhos crescem, o medo passa, e a única colheita desses pais é a ausência de afeto e de respeito dos filhos, porque vencido o medo, não resta nada. As mulheres nem sempre são vítimas. Ahhh! O patriarcado! Sim, o patriarcado tem culpa. Tem culpa, porque as mulheres na ânsia de manterem uma relação afetiva, fazem da própria omissão uma garantia de permanecerem sendo escolhidas. Dependência emocional pelo agressor do filho, embora sirva de desculpa para a omissão, é também uma forma de dizer: "eu amo mais o pai/padrasto do meu filho, que a meu filho". O patriarcado coloca a validação de uma mulher pelo homem como status. A forma de validação maior é o casamento ou uma união estável. Mas em lares violentos, é uma forma de dizer ao filho que ele já nasceu em desvantagem e terá que se virar sozinho para sobreviver, melhor, para se defender. Se você passar perto do ninho de uma rata, ela avançará para cima de você. Não é natural não defender a cria. Há uma corrupção, por parte da mulher nesses casos: validação, poder, narcisismo, dependência emocional etc. Falo de mulheres independentes financeiramente, mulheres informadas, como também de mulheres que não são. Atualmente, temos visto a onda crescente de busca por ser esposa-troféu. É a nova forma de validação feminina. É a glória para as escolhidas no patriarcado. A tendência será agravar ainda mais a violência adultocêntrica e termos mais mulheres omissas. A violência adultocêntrica conta com a colaboração de homens e mulheres na mesma proporção. O patriarcado dá mais visibilidade ao homem. Mas sem a mulher, a violência adultocêntrica é difícil de ser sustentada. Falamos até agora da mulher omissa. Mas há diversos casos de mulheres violentas com crianças. O que me espanta é como homens lidam com isso, quando adultos, no patriarcado. Observo homens que foram agredidos por pai e outros por mãe. Quando a agressão parte da mãe, há uma ferida que não fecha, e esses homens tendem a promover comportamentos e falas misóginas, busca por companheiras independentes que precisam ser dominadas e diminuídas, como forma de dominarem a mãe. Quando esses homens sofrem violência do pai, tendem a seguir a vida, sem exposição das feridas, normalizando agressões contra crianças, como comportamento corretivo, porque vêem a violência, desde pequenos, como um privilégio masculino. A impressão que tenho é que se tornam solidários a seus espancandores para manterem privilégios e o uso da violência é um deles.
Laura Berquó
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