terça-feira, 21 de abril de 2026

NUTRICÍDIO: POR QUE A MAGREZA É UM MARCADOR DE CLASSE?

Falar em nutricídio é falar em racismo alimentar e em padrões estéticos que estão cada vez mais associados a marcadores de classe social. Pulando de uns séculos passados onde a formosura estava em um corpo nem magro, nem gordo, mas generoso nas curvas, era indicativo de boa alimentação, de acesso à comida. Até a falta de higiene até certo ponto revela isso. Perguntei a um dentista certa vez porque eu via que homens brancos 50+ tinham mais tártaro. A primeira resposta foi a que eu imaginava: falta de higiene mesmo. A segunda é que me surpreendeu: eles têm mais acesso à comida e gera mais resíduos. E pensei: sujidade como marcador de classe. Essa é interessante. Mas o retorno ao culto da magreza extrema tem a ver também com o marcador de classe. Certas condições favorecem naturalmente a magreza, como a juventude. Mas mesmo assim pessoas de baixa renda não conseguem manter o padrão de magreza esperado. Assim como mulheres de condições sociais mais pobres não conseguem ser magras, sem mesmo extremo de magreza, porque são vítimas de nutricídio. As condições econômicas levam ao consumo de uma alimentação pobre em nutrientes e de ultra processados por serem bem mais barato e acessível. A magreza extrema como símbolo de status, de life style e de esforço individual deveria ser lida como marcador de classe. O direito à alimentação como direito social, reconhecido constitucionalmente, ocorreu a partir da Emenda Constitucional n.º 64/2010, que alterou a redação do art. 6º do Estatuto Básico de 1988. Falar em direito à alimentação também é combater o nutricídio como forma de exclusão social e insegurança alimentar. O conceito de segurança alimentar aqui apresentado é o dos representantes do Governo Lula I e da sociedade civil para a Cúpula Mundial de Alimentação, segundo exposição do economista Francisco Menezes, membro da Rede Interamericana Agricultura e Democracia (RIAD): "A Segurança Alimentar e Nutricional significa garantir, a todos, condições de acesso a alimentos básicos de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis, contribuindo, assim, para uma existência digna, em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana. (MENEZES: 2011). Segundo José Graziano da Silva, o conceito de Insegurança Alimentar adotado pelo Programa Fome Zero abrangia quatro dimensões: a) Quantidade; b) Qualidade; c) Regularidade; d) Dignidade: "É importante guardar essas quatro dimensões, senão reduzir, vamos ao debate a uma delas. Insegurança alimentar não é só desnutrição. Insegurança alimentar não é só fome. A obesidade, por exemplo, é um aspecto da insegurança alimentar. Nós temos hoje l0% dos brasileiros claramente com má alimentação. E isso é um problema muito sério, especialmente nas classes média e altas." (GRAZIANO: 2004) Graziano aponta para uma insegurança alimentar nas classes médias e altas por má alimentação. Essa má alimentação não é por falta de recursos a alimentos de qualidade e isso diferencia do nutricídio imposto à população de baixa renda. Na estética da magreza extrema como marcador de classe média e alta, entra um outro aspecto além da alimentação que é o tempo para investir em auto cuidado, o que pressupõe uma estrutura como empregados que o feminismo decolonial bem aponta em contraposição ao feminismo liberal, acesso à transporte de qualidade que otimiza o tempo, acesso à eletrodomésticos que diminuem o tempo dedicado às atividades domésticas, etc. Definitivamente a nova magreza é um marcador de classe ao lado de acesso a procedimentos estéticos. Laura Berquó

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