terça-feira, 27 de janeiro de 2026

AS BRUXAS PERNAMBUCANAS NA VISITAÇÃO DO SANTO OFÍCIO DE 1593 A 1595 - PARTE 2


Continuando com nossas histórias reais, hoje trazemos a figura de Fellicia Tourinha, apontada como bruxa por Domingas Jorge, que há exatamente 433 anos (28.11.1594) compareceu à mesa do Santo Ofício, mais especificamente, da Primeira Visitação do Santo Ofício (1593-1595) às capitanias de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba.

Assim como Domingas Brandôa, nossa querida "Bruxa" já anteriormente citada, Fellicia Tourinha também foi presa por crime comum, por ter dado "huã bofetada a huã molher onrada da Igreja?" Talvez a motivação do crime tenha sido por algum desrespeito da "molher onrada da Igreja". Fellicia Tourinha era uma mulher "mulata", filha natural de um clérigo com uma negra forra chamada Antônia Vaz. 

A população das vilas (Olinda, Recife, etc) e cidade (atual João Pessoa) das capitanias de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba já era bem miscigenada com pessoas "mulatas", "mamelucas", negras de origem angolana, brancas (cristãos novos e cristãos velhos portugueses) e indígenas. Muitos mestiços de brancos com negros eram oriundos das Madeiras, a exemplo do grande Capitão-Mor e um dos heróis da Paraíba no século XVII, João Fernandes Vieira, o "Mulato". Mas não temos informações maiores sobre a origem de Tourinha, se sua mãe era nascida no Brasil, das Madeiras ou se era angolana, haja vista que o tráfico de pessoas da Costa da Guiné para essas três capitanias começou com os holandeses no século XVII, conforme leitura de textos na obra Antologia do Negro Brasileiro de Edison Carneiro.

A denunciante de Fellicia Tourinha foi Domingas Jorge, sua ex-companheira de cela há 9 ou 10 anos antes da denúncia. Domingas Jorge foi presa por ser "amancebada com homem casado".

Segundo Domingas Jorge, Fellicia enfiou uma tesoura em um chapim (calçado feminino) e proferiu as seguintes palavras "diabo guedelhudo, diabo orelhudo, diabo felpudo, me digas se vai "Foam" (Fulano) por tal caminho (que era hum homem ao qual queria saber se hia onde ele tinha dito que havia de ir), se isto he verdade faça andar isto, se não he verdade não o ffaças andar".

A tesoura não só teria se mexido como fez meia volta, sob reclamações da denunciante. Tempos depois, Domingas Jorge soube que a resposta do "Diabo" estava correta: o tal homem foi pelo lugar que disse que iria. 

Fellicia Tourinha estava sendo acusada de evocar o Diabo para práticas advinhatórias. Mas para sua sorte, não se encontrava mais em Olinda, pois tinha se casado com um homem branco, chamado Gaspar de Paiva e antigo criado de Filipe Cavalcanti, genro do famoso Adão Pernambucano. O casal Fellicia e Gaspar haviam se mudado para um das "capitanias de baixo", ao sul de Pernambuco.


Laura Berquó

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