sábado, 14 de março de 2026

O 6 DE OUROS NA VIDA DAS MULHERES

 



A última vez que me demorei em um investimento afetivo foi aos 43 anos. O senhor de 61 anos, muito preparado intelectualmente, um dos homens mais cultos que conheci (conheci depois outros tão cultos quanto que se tornaram meus amigos), dizia estar procurando uma mulher madura para a possibilidade de reconstruir família e logicamente me pegou na questão da maternidade. Hoje eu vejo que eu estava cheia de crenças limitantes e embora eu possa ainda ter filhos por meios naturais, não estou mais preocupada em procurar um parceiro para exercer a maternidade. Esse mês de abril, já decidida, irei já dar entrada na habilitação para adoção. Voltando ao senhor, após 9 meses de conversa, insistência dele para ingressar em ambientes da nossa área, encontro presencial no Rio, disse, quando retornei a João Pessoa, sem maiores explicações e de forma grosseira me despachando, que não poderia dar o que eu queria e que eu não tinha entendido porquê não quis, meteu um ghosting antecedido por uma lista de defeitos que elencou em mim e começou a fazer orbiting. Orbitava olhando meu status no whatsapp, o que não fazia antes e começou a ficar desenvolto em grupo de whatsapp em que eu participava com frequência. Tudo para ser visto e na percepção dele eu ter que me calar, porque afinal, não ficaria bem para uma mulher a quem ele teria feito o "enorme" favor de abrir uma "porta tão relevante" no espaço jurídico, reclamar de violência psicológica e do meu tempo que ele achava que poderia dispor com promessas vazias. Essas promessas vazias me fizeram aguentar desaforos durante esses 09 meses. Afinal, se as coisas não andavam na vida da Laura era porque o gênio dela era ruim. Um homem de posição tão elevada estaria imune a uma mulher que segundo ele, com o sotaque nordestino seria motivo de menosprezo no Rio. O natural seria que eu aguentasse a humilhação dele quieta. Eu não cumpri com as expectativas dele de menina bem comportada. Eu escancarei a situação. Foram 07 meses relatando publicamente a situação. Não tenho porquê poupar homens abusivos que me reduzem a coco. Mas obviamente quem ficou mal por parte de muitas mulheres tão opressoras quanto fui eu. Não eduquei e nem educo minha raiva. Ninguém gosta de mulheres com raiva, porque elas muitas das vezes expõe um incomodo e uma ferida. Nessa mesma época ouvi minha Pombagira me dizer: "você não precisa de homem para nada, você já tem tudo o que você precisa". De fato, meu erro foi botar expectativas em uma situação como se o que eu tivesse não fosse o suficiente para mim. E a Pombagira retornou dias depois dando risada e aprovando meu esculacho público de expor o que eu passei. Não sinto vergonha, eu realmente não iria ficar oprimida.  O investimento a que fui levada a fazer foi um engodo. Um 6 de Ouros sem retorno. E assim é a vida da maioria de nós mulheres. Esse fato foi um divisor de águas, embora tardio. Comecei a derrubar muitas crenças limitantes, inclusive com relação à expressão da minha sexualidade. Também perdi a vontade de agradar e fazer  investimentos em longo prazo que só sugam minha energia. Mesmo numa expectativa de algo que não viria, eu tinha a mania de ser "fiel" a "conversante". Depois disso aprendi que mulheres que criam uma reserva de mercado afetivo podem não ter ninguém da mesma forma, mas não perdem o melhor da vida que é investir em si mesmas. O cara não corresponde? Segura com conversa, mas você não vê evolução? Você está se apegando? Com a tal reserva você já pula de papo para o próximo. É o lado bom da era "líquida". Não desperdiça mais sua saúde mental. Errado? Errado é perder tempo e vida. Hoje sou mais prática. Após 2 semanas a 1 mês não aguardo mais pelo que não se move. Decido e vou cuidar da minha vida. Ou olhar para minha reserva de "mercado" afetivo e gritar: "o próximo". Passei a ter saúde mental. Pelo incrível que pareça, passei a ter uma melhor qualidade na minha autoestima. E digo que se manter na superfície do tesão ou do desejo sem paixões ou sem razões calcadas no que é "moralmente" correto para uma mulher fez com que me restituísse o olhar para outras áreas da minha vida. Há uns 10 anos sonhei com meu pai Ogum quando me livrava de um relacionamento de 03 anos com um grande mentiroso que não me deixava em paz. Ogum irritado aparecia em sonho: "Não tenha pena de homem. Eu te proíbo de ter pena de homem". E hoje realmente não consigo ter pena mais.


Laura Berquó 

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