Uma vez sentada à mesa de um restaurante no interior, um Ex-Conselheiro de Direitos Humanos juntamente com populares largaram o prato na primeira garfada. Perceberam pela dureza da carne que se tratava de boi de carroça ou de tração. Todos se recusaram a comer a carne e eu perguntei o porquê. A explicação é que o boi de carroça é um companheiro do homem e a maior traição é vender um boi de carroça ou de tração para o abate. Entendi que ele falava de amizade, lealdade e gratidão. Eu não sou nem boi, nem vaca. Mas a analogia cabe. Ainda mais quando se trata de gente que pensando que você está caminhando para um "sacrifício" no meio de um abatedouro simbólico, passa a te ignorar e te tratar como desconhecida. Não é a primeira vez que isso acontece comigo. Na verdade, já aconteceu em questão muito mais séria. Mas já reparei que a mulheridade branca burguesa tem dois perfis distintos. A primeira que me deixou pelo caminho foi uma mulher de origem abastada, de fazendeiros tradicionais, que embora tenha tido o filho assassinado, pelo qual eu briguei por Justiça, acreditava que externalizar dores e enfrentar algozes não ficava bem para uma mulher da "classe social dela". A mulheridade branca burguesa tem dessas coisas. Não fica bem porque o acordo de classe (e ai se vê gênero e cor como posição de privilégios também) não autoriza mulheres colocarem a dor de mãe à frente de convenções. Não fica bem colocar a fúria pra fora, o esperneio, a dor etc. Até na dor há padrões a serem seguidos. A segunda é mais recente e por algo muito mais irrisório, porém que caracteriza bem um outro aspecto da mulheridade branca burguesa que é aquele que briga por igualdade, mas se comporta como a maioria das feministas liberais que somente enxergam mercado de trabalho, cobra com rigidez que as demais mulheres atendam expectativas comportamentais de mercado e do que se convencionou ser o certo para mulheres. Nada de autenticidade, escândalos e logicamente para ser aceita pelo mercado, repressão da própria feminilidade. Eu também comprei sua briga e fui perseguida por isso, em um espaço que vive mais de memória gloriosa, de uma sombra de bom nome, tomada hoje mais por pessoas sem espaço midiático e visibilidade que precisa se agachar pra caber e não sofrer retaliações de mulheres que também se ajustaram ao que o capitalismo e o feminismo liberal esperavam delas, enquanto mercado de trabalho do que propriamente respeitar a natureza criativa de cada uma. Não há sororidade para mulheres assim. O que há é uma necessidade de subjugar mulheres também. Reparei o afastamento e a frieza da colega, porque na certa subestimou a minha história de quem já sobreviveu a perseguições muito graves na Paraíba. Outro problema do Sul e Sudeste é acreditarem realmente que fora desses circulos as coisas não aconteçam e se acontecem é dentro de um estereótipo. Não sou boi de tração. Mas se eu fosse e estivesse indo para um abatedouro, não faria a menor diferença para essas senhoras.
Laura Berquó

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