sábado, 16 de maio de 2026

"SEXUALIDADE DA MULHER BRASILEIRA" DE MURARO: PARTE 1

Lendo "Sexualidade da Mulher Brasileira. Corpo e Classe Social no Brasil", estudos organizados por Rose Marie Muraro há umas décadas (foto da capa do livro tirada da internet). Lendo ainda a sexualidade da burguesia carioca, mais precisamente das mulheres entrevistadas. Estou no início praticamente. Mas analisando o resultado da pesquisa com falas que tenho visto de diversas artistas sobre o climatério e menopausa antes dos 50, cada vez me convenço que a grande mídia acha realmente que o Rio representa todo o Brasil. E como sou carioca de nascimento e paraibana de coração, as comparações são inevitáveis. Aqui as mulheres entram no climatério e na menopausa em torno dos 52 anos ou mais. Comum ver aqui mulheres de 53 e 54 anos começando o climatério. Independente se são paraibanas ou não, reparei que as nascidas em outros estados aqui são mulheres que migraram para cá muito jovens, crianças ou adolescentes e também retardam o processo do climatério. Creio que a resposta esteja na qualidade da água. É intuição de leiga, mas aqui as fontes de água mineral são muito boas e a água do reservatório daqui cai fina do chuveiro. Há também o fator stress, pois aqui a qualidade de vida é muito melhor, até pouco tempo não se ouvia falar inclusive em poluição das praias, o consumo era mais natural dos alimentos e também se andava mais a pé, como se anda sem medo de toda hora sermos assaltadas, permitindo que a gente se movimente mais. Vendo as entrevistas dessas mulheres percebi o luto que muitas sentem ao passar por essa fase do climatério/menopausa e como isso virou uma indústria que as mulheres aqui não dão muita importância, porque seguem somente o que a ginecologista prescreve e porque aqui há um visão natural das fases da vida da mulher. Aqui ninguém se constrange em dizer que está menstruada, que precisa de um absorvente porque esqueceu em casa alguma unidade, etc. Há uma naturalidade da mulher paraibana em tratar de certos assuntos entre mulheres. Também tratam com naturalidade a chegada do fim da vida reprodutiva como uma nova fase, sem o sentimento de luto que se vê na grande mídia. E lendo a obra acima de Muraro entendi que o luto inconsciente dessas mulheres, no caso, como lido sobre a chamada burguesia carioca, seja o fato de associarem menopausa ao fim da vida sexual, como se a mulher perdesse um grande predicado com o fim da vida reprodutiva. Antes não havia tanta acessibilidade ou informações sobre reposição hormonal e essas crenças limitantes são passadas de geração para geração e como modelo para outras classes sociais. Se considerarmos que a pesquisa tem em torno de 50 anos, não é tanto tempo para mudanças significativas em comportamentos repassados dentro de classes sociais que buscam ser referência. Outro aspecto relevante da pesquisa é o dado da beleza para acesso ao mercado matrimonial e por isso uma ênfase à estética do corpo (que passa por transformações no climatério). Aqui o critério até pouco tempo para casamento na burguesia local tinha a ver com a origem familiar, as relações entre famílias na sociedade, a necessidade de alguns pais casarem virgens suas filhas, não sendo a beleza o ponto central para acesso ao mercado matrimonial. A beleza deveria ser acompanhada desses critérios citados. Não era a isca para contrair casamento. Essas diferenças talvez expliquem o sentimento de luto de muitas mulheres famosas do Sudeste quando dão entrevista sobre a chegada do climatério. Como se realmente fossem perder parte de seu capital erótico e acesso ao mercado afetivo, o que de fato não acontece, porque cresci vendo minhas avós sendo cortejadas mesmo após os 65+. Lerei o capítulo sobre os homens da burguesia -RJ e a influência disso na sexualidade das mulheres para passarmos à parte da pesquisa sobre o campesinato pernambucano. Laura Berquó

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