sábado, 16 de maio de 2026

O QUE NÃO FALAM PARA AS MULHERES SOBRE A ADVOCACIA

Podem não falar, mas muitas devem sentir. Comecei a estagiar aos 21 anos junto ao escritório de Prática da Universidade que tinha convênio com a Defensoria Pública. Adorava, porque inclusive no meu teste vocacional deu grande inclinação para Serviço Social e Letras empatados. Direito veio em terceiro lugar. Como era algo que eu fazia por prazer, não me sentia mal. Somente a velha enxaqueca quando adentrava no Fórum, devido à energia de conflito no lugar. Depois fui me adaptando. Aos 23 me inscrevi na Ordem e comecei a advogar mesmo com mais causas aos 25 anos, porque antes me tornei bolsista no Mestrado e não poderia me dedicar a outras atividades. O fato é que após os 30 anos eu passei por momentos delicados e de perseguições aqui que me fizeram viver em alerta constante, correndo atrás de resolver problemas dos outros, entrando finais de semana com prazos e percebi que aquela rotina não me agradava, que o dinheiro não era condizente com meu desgaste, que as pessoas nem sempre respeitavam o meu trabalho e o cortisol foi se acumulando no meu corpo. Só consegui recuperar a estética perdida nesse período denso após me afastar de lugares de conflito, de pessoas tóxicas, de colegas agressivos, a quem eu tinha que revidar para não perder o respeito, próximo ao período da pandemia. Descobri uma paz tão grande que não quero retornar ao inferno que ninguém diz que a advocacia é, dependendo da área, tirando sim a energia da leveza, a energia da beleza, tirando o resto da saúde mental. Ninguém quer falar sobre isso e continuam avaliando a vida das advogadas que recém entraram na profissão ou ainda são muito jovens, que não tiveram tempo de ver o saldo do desgaste como um estilo de vida maravilhoso. Com os homens não é muito diferente. Entravam magros na advocacia, com menos de 40 já acumulavam a calvície, a barriga de cortisol e o ganho de peso. Mas o problema da mulher é que muitas de nós precisamos renunciar à vaidade se quisermos ser respeitadas. Não tenho como não dizer que a advocacia de litígio não me trouxe prejuízos na energia, na aparência, na falta de leveza, etc. Estou dando outro rumo para fora do contencioso e buscando me dedicar aos estudos, à consultoria, livros e pareceres, porque me dá paz e já passei da idade de querer provar algo a alguém. Não preciso provar nada a ninguém e isso é paz. Não preciso provar que sou boa, corajosa, competente, etc. Já provei e já cansei. Na juventude nos incomodamos com o que os outros pensam. Depois vemos que é besteira, porque nosso autoconceito surge mais das crenças limitantes de familiares e da sociedade. Como também muitos discordarão de mim e dirão que sou limitada em dizer que certos ramos da advocacia nos tiram a feminilidade e leveza se quisermos nos fazer respeitar e estaremos lá sempre de terno ou de jeans com uma blusa feminina, mas negociando entre o minimalismo e o feminino, porque morremos de medo de sermos mulheres em um meio de estética masculinizada. Você é nova na profissão ou jovem advogada? Crie estratégias para não se desgastar antes do tempo e cobre bons honorários para poder se cuidar. Essa parte ninguém avisa de como a vida nos ressente da paz, da feminilidade que perdemos tentando ser heroínas o tempo todo. Eu realmente não estou mais disposta a me masculinizar para caber, perder minha saúde mental e leveza como fiz na casa dos 30. Essa parada da pandemia me obrigou a olhar para dentro. Laura Berquó

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