
Passo a
reproduzir o texto que publiquei em outubro de 2019, para identificarmos quando
começou oficialmente o entreguismo do Brasil aos EUA e em contrapartida das
nossas terras raras, que passa sem sombra de dúvidas pela questão indigenista.
Abaixo,
segue ANÁLISE DO DISCURSO DE BOLSONARO NA ASSEMBLEIA GERAL DA ONU:
O Presidente
iniciou seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 23 de setembro de
2019, já nos primeiros 20 segundos agradecendo a Deus pela vida e pela missão
de presidir o Brasil para que a partir dessa missão tenha a oportunidade de
restabelecer a “verdade”. Apresenta um “novo Brasil” que como Fênix está
ressurgindo após estar à beira do socialismo, com o discurso de que está
legitimado pelo apoio popular nessa reconstrução, trabalhando arduamente para reconquistar
a confiança mundial. Isso seria feito a partir da diminuição, segundo ele, da
violência e de políticas desburocratizadoras, mas ao estilo dos discursos do
ano de 1979 quando o Regime Militar adotou a mini-Reforma Desburocratizadora e
meados dos anos 90, quando teve início a Reforma Gerencial no Brasil. Atrasados
estamos em quase 20 anos e há 40 anos em um primeiro momento, pois mais a
frente verifica-se em todo seu discurso ausência de menção à participação
popular na gestão da coisa pública, desconhecendo que já passamos do Estado
Gerencial-Societal. Coloca a culpa da corrupção do país no socialismo,
ignorando que antes de 2003 o país já vinha de um modelo de Estado com menos de
70 anos de divisão oficial entre o Estado patrimonialista e o Estado
Burocrático, ignorando que a corrupção e o despotismo em confundir o público e
o privado no Brasil é cultural e não ideológico. Considera ainda a política
“socialista” a causa da recessão no país, desconsiderando obviamente que o país
passou por crise institucional e política recentemente, que alçou o projeto
atual dentro do vácuo político que se formou, sem ao menos ser apresentada
contra a ex-Presidente Dilma Roussef alguma denúncia formalizada pelo
Ministério Público Federal. Em seu discurso ainda fala dos ataques aos valores
religiosos e familiares impostos pelo governo “socialista” o que com certeza
ameaçaria as tradições na qual se constituiu o Brasil, no seu entendimento.
Valores religiosos, leia-se cristão, uma vez que apesar de oficialmente laico, o
Estado brasileiro desde o período da campanha presidencial tem como ponto de
apoio setores religiosos mais conservadores que levam a confusão de muitos,
inclusive não cristãos, entre os conceitos de laicismo e laicidade. Sem a
mínima diplomacia, expõe os “podres e feridas” de dentro da “própria casa”
quando se refere ao PT e ataca países da América como Cuba e Venezuela,
intrometendo-se em questões internas e avaliando o Programa Mais Médicos como
pernicioso pelo viés ideológico, sem ter conseguido até então em 09 meses de
governo, suprir a ausência de médicos em estados onde a procura do exercício
profissional por esses profissionais seria mais remota. Fala em defesa dos
médicos cubanos acerca dos direitos trabalhistas e fundamentais, mas esquece
dos próprios discursos contra os direitos da mulher no mercado de trabalho.
Ataca a ONU em seguida além de ONGs de Direitos Humanos no Brasil como se
fossem a favor de trabalho escravo tomando por base sempre o modelo cubano.
Ataca ainda o regime cubano alegando que este nos anos 1960 enviou vários
agentes para diversos países para colaborar para a implantação de ditaduras.
Omite realmente que a Revolução Cubana é do ano de 1959, muito recente naquele
período ainda, omitindo também acordos internacionais, pelo menos na América
Latina, feitos entre esses países latino-americanos e os EUA por meio do
Programa Aliança Para o Progresso, exposto na Carta de Punta Del’ Este, que
interferiu significativamente na vida política, econômica e legislativa desses
Estados, sem a contrapartida de recursos prometidos com a criação do Banco
Internacional de Desenvolvimento – BID. Desconhece que a Guerra Fria teve dois
lados, da Ordem Econômica bipolar estudada na escola ainda na segunda parte do
ensino fundamental, além é claro de não expor a responsabilidade
norte-americana pelas mazelas impostas naquele período (anos 1960) com forte
concentração de renda na década seguinte e expansão de infraestrutura (fator
capital) e multinacionais sem a devida contraprestação aos mais excluídos. Fala
da morte de civis e militares brasileiros a partir dos anos 1960, esquecendo
dos torturados pela Ditadura Militar no Brasil e restante da América, apontando
tais civis e militares responsáveis pela grande façanha de expulsar o
socialismo de caluniados. Quando fala da Venezuela, em seguida. também volta a
satanizar o socialismo e esquece que independentemente da forma como se deram
as eleições naquele país, e que o objetivo norte-americano é o petróleo
venezuelano, esquece de falar dos embargos e sanções econômicas impostas aquele
país pelos EUA. Ainda em parceria com os EUA trabalha para que outros países
sul-americanos não experimentem o modelo socialista desconhecendo o conceito de
autodeterminação dos povos. Ataca a imprensa brasileira como antro comunista.
Realça o neoliberalismo e novamente faz um retorno à gestão gerencial sem
participação popular. Fala de acordos internacionais com a União Europeia por
meio do EFTA. Acordos que serão firmados nos próximos meses. Os dois maiores
acordos do país foram firmados entre o MERCOSUL-Europa e com o EFTA. Fala da
adesão a OCDE adotando práticas mundiais de ordem financeira e de proteção
ambiental, mas não diz quais. O ponto importante em que começa a desconstruir
as lutas históricas de minorias começa a partir do 6’53’’ quando se dirige a
Ysani Kalapalo, como representante indígena e legitimando seu discurso para
falar em Amazônia. Sendo que os Kalapalos são do Alto-Xingu, área geográfica
não alcançada exclusivamente pela geografia amazônida, pois se trata de uma
área de transição geográfica entre o cerrado e a Amazônia. No seu discurso fica
claro que relaciona Amazônia à figura do indígena. Fora da Amazônia talvez não
haja indígenas nem nações representativas. Pela fala disseminada pelos
seguidores do Presidente, com certeza aquela é indígena em detrimento dos
demais autodenominados assim, porque tem os fenótipos exigidos pela nossa
sociedade não-indígena para dizer quem é e quem não é ““índio””. Desconhecem
que as nações indígenas têm o direito à autodeterminação e eles serão os
responsáveis por dizerem quem são ou não indígenas dentro da nação a que
pertencem, da mesma forma que a Constituição Federal tem autonomia para dizer
quem é e quem não é brasileiro nato. Isso para atacar os discursos sobre a
tutela da floresta amazônica, em que realmente deve ser respeitada a soberania
brasileira no que diz respeito à Amazônia Brasileira, mas cujo patriotismo
alegado pelo palestrante, é na verdade o reflexo de um chauvinismo que não é
tão nacionalista assim quando mais adiante fala em soberania, mas elogia Donald
Trump que é presidente de um país armamentista, que cultiva conflitos em vários
países do mundo. Aliás, segundo o Plano de Governo "O Caminho da
Prosperidade", o discurso do então candidato era estreitar parcerias
comerciais com países armamentistas que estão no ranking dos 10+ exportadores
para o mercado global, tidas como “Democracias Importantes”: EUA, Israel e
Itália. Culpa a mídia mais uma vez como sendo a responsável por propalar
fakenews sobre os incêndios na Amazônia e despertar cobiça de outros países. A
crítica à imprensa é recorrente assim como a defesa intransigente de valores
“tradicionais”, desconstruindo a luta de minorias pelo reconhecimento de
direitos. Fala dos 14% do território nacional como aspecto negativo, como se os
“nativos” não fossem tratados como seres humanos e não usufruíssem de nada da
sociedade não-indígena. Simplesmente ignora a Teoria do Indigenato, embora
desde o Governo Dilma tenha sofrido a desconstrução da Teoria Constitucional do
Indigenato, teoria alçada ao texto constitucional atual fruto da militância
ferrenha e valorosa indígena da primeira metade dos anos 80 até culminar no
art. 231 da CF/88. Trata-se de uma luta não reconhecida e desqualificada pelo
discurso de Bolsonaro quando mais adiante ataca o líder indígena Raoni
Metutikre como a serviço de líderes internacionais de olho na Amazônia. Os
“mesmos direitos” (dos "brancos") são extensivos aos indígenas,
informando que não aumentará para 20% da área do território nacional, confirmando
o fim da Teoria do Indigenato. Ainda utiliza a própria diversidade entre as
nações indígenas contra esses próprios povos para desconstruir a luta social
que teve grande projeção na década de 1980 como já dito. Ataca as ONGs
amazônidas que lidam com a questão indígena, diminuindo a condição indígena a
de selvagens. Ou seja, desconhece a realidade de vários indígenas que estudam,
trabalham, moram em casa de alvenaria, etc, porque limita sua visão do “índio”
como aquele que corresponda a certos fenótipos e cultura. Cabe mais uma vez ao
“branco” dizer quem é “índio” nessa fala. “O “índio” não quer ser latifundiário
pobre sobre terra rica”, segundo ele, porque citando o exemplo das Reservas
Ianomami e Raposa Serra do Sol, fala da fertilidade das terras amazônidas, como
se a terra amazônida em Roraima não tenha se limitado a pasto com o Regime
Militar e plantação de arroz. Fala de propósito da Raposa Serra do Sol porque o
STF reconheceu a aplicação da Teoria do Fato Indígena em detrimento da Teoria
do Indigenato quando ambas podem coexisitir, quando se verifica por exemplo, a
posse de grupos étnicos mais recentes vindos da região das Guianas. Fala da
abundância de minerais na Reserva Ianomami. Lê uma carta que direcionada em
apoio a Yzani Kalapalo, hoje alçada a representante dos indígenas nacionais,
desmerece sem citar a figura de Raoni Metuktire, para legitimar a nova política
indigenista de por fim à Teoria do Indigenato, em nome de 52 etnias. Reclama
das políticas sociais como Bolsa Família como sendo sinônimo de pobreza e não
de política desmercatilizadora de redistribuição de renda. Logo depois fala nas
“parcerias” para explorar essas áreas, logo não se trata de defesa de soberania
mas quem poderá ou não explorar a Amazônia dentro do novo modelo ideológico.
Amaldiçoa os presidentes brasileiros anteriores pelo socialismo, exaltando
Sérgio Moro, ex-juiz e atual Ministro da Justiça, que ferindo o princípio da
imparcialidade e adotando o modelo inquisitorial, ainda que estivesse diante de
esquemas de corrupção, fragiliza todo o conceito de segurança jurídica quando o
magistrado é permeado por questões ideológicas seguindo a risca seus escritos,
como se profeta fosse, conforme se infere das "Considerações sobre a
Operação Mani Pulite" de 2003. Aliás, no referido Plano de Governo "O
Caminho da Prosperidade", nem a palavra ““índio”” é localizada se for
pesquisado. Logo, não se pensaram políticas indigenistas para o setor, nem de
uma minoria como a população negra no que tange a luta pelo reconhecimento de
direitos. Com um passe de mágica parece que tornou o Brasil mais seguro. Em sua
fala fica claro quando fala da possibilidade de ingresso de turistas cujos
países foram dispensados de visto como forma de “hospitalidade” do povo
brasileiro, escancarando as portas para parceiros comerciais vestidos de
turistas para turistar a Amazônia brasileira. Fala da violência contra
policiais militares que foi diminuída em 2019, reduzindo em 20%. Não parece
porque as causas da violência e dos confrontos urbanos continuam os mesmos. Aliás,
ignora os 80 tiros dados pelo Exército em pai de família negro Evaldo Rosa dos
Santos além de outras mortes nos morros cariocas em que as crianças são as
principais vítimas. Fala em redução da violência, mas se esquece do aumento do
feminicídio. Inclusive no Plano de Governo “O Caminho da Prosperidade” não
consta a palavra feminicídio. Aliás a única política do Ministério da Mulher,
Família e Direitos Humanos tem é a obsessão pela tal “ideologia de gênero”,
esquecendo de tratar de políticas para as mulheres. Sem falar que a postura é
de escracho com a figura de Marielle Franco por vários setores que prestam
solidariedade ao atual governo, desconsiderando o fato da mesma ter sido vítima
de violência, juntamente com o motorista Anderson Pedro Gomes, de esquemas
milicianos da cidade do Rio de Janeiro. Com relação ao combate aos ataques
religiosos, fala dos ataques no exterior e esquece dos ataques aos terreiros de
umbanda e candomblé no Brasil. Fala dos cristãos e pessoas de outras religiões
que perdem vidas devido a fé pelo mundo. Mas esqueceu dos terreiros
brasileiros. Fala das missões das Forças Armadas brasileiras em diversos países
e a necessidade de expansão mostrando o aspecto militarista do governo como
política estrangeira. A ampla agenda nacional para retomar a imagem
internacional e parcerias internacionais, fala de Davos, mas se estende com a
parceria norte-americana, um dos países armamentistas. Fala da ida ao Chile e o
protagonismo brasileiro para a América do Sul, da ida a Israel, outra “democracia
importante” armamentista, ida a Argentina para parcerias na América do Sul e de
futuras visitas aos países do Oriente Médio e Extremo Oriente. Os países árabes
parceiros são aqueles que se afinam aos EUA. Fala dos sistemas ideológicos que
dominaram meios acadêmicos, mídias, etc, satanizando o que chamam de “ideologia
de gênero”, como se houvesse perversão sexual de crianças por meio da escola.
Expressa que isso coloca em risco a “família” brasileira, desconhecendo a
pluralidade de arranjos familiares, seguindo o modelo cisheteronormativo em
detrimento dos direitos de minorias conquistados a duras penas. E essa
ideologia seria tão poderosa que teria entrado nas almas das pessoas para
expulsar Deus (o cristão) e a dignidade (porque quem não estiver no modelo
cisheteronormativo não é digno), faltando clamar por uma sessão de exorcismo.
Fala da famosa facada e mais uma vez atribui a Deus o milagre da sua
recuperação, esquecendo da falta de empatia que demonstrou com a morte de
Mestre Moa do Katende que foi assassinado com 13 facadas por ser eleitor do PT
por um extremista bolsonarista. Talvez por não ser um “escolhido de Deus”, do
Deus que salvou e colocou no Planalto o atual presidente, Mestre Moa não tenha
conseguido o livramento. Por fim, a ONU pode ajudar a derrotar o materialismo
(leia-se socialismo marxista), ignorando a autodeterminação dos povos,
materializando o Evangelho de João com um sentido totalmente fora do contexto
espiritual da tradição joanina tendo poupado a todos de subverter para o sentido
político a tripla tradição sinóptica nas suas citações. O problema do
extremismo de direita é justamente desconsiderar a existência de pessoas e
lutas, tornando-as invisíveis. O discurso apresentado em 23.09.2019 na
Assembleia Geral da ONU pelo Presidente Bolsonaro é o ultradireitismo
excludente de minorias, além de colocar o Brasil subjugado aos interesses
norte-americanos.
Laura Berquó