Imagem tirada da Revista Galileu
Com base na obra “A Saga dos
Cristãos-Novos” na Paraíba”, de Zilma Ferreira Pinto, descobri que a primeira
Visitação do Santo Ofício à Paraíba, que foi realizada no período de 06 de
janeiro a 25 de janeiro de 1595, não encontrou “Bruxas” e “Feiticeiras” vivendo
em terras tabajarinas, ou que tenham pelo menos sido denunciadas. Das denúncias feitas na Paraíba, mais precisamente
na sua única freguesia, tendo a antiga capital de Nossa Senhora das Neves como
única cidade também, foram 16 denúncias por bigamia, blasfêmia e sodomia.
A autora Zilma Ferreira Pinto
ainda registra que em Olinda foram denunciadas as seguintes mulheres acusadas
de bruxaria e feitiçaria:
“Em Olinda foram denunciadas
mulheres que as classificavam de bruxas e feiticeiras, por ocasião da visitação
do Santo Ofício 1593-1595: Anna Jacome, que era torta de um olho. Brísida
Lopes, que previa o futuro. Lianor Martins, a Saltadeira, e que viera do Reino degredada.
Domingas Brandôa, que fazia cerimônias com uma vassoura para advinhar o futuro.
Felícia Tourinha, que invocava o diabo.”
Segundo pode ser colhido da
obra do Senhor Visitador do Santo Ofício (1593-1595), Heitor Mendonça de
Furtado (Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil), as visitas
ocorreram também nas capitanias de Itamaracá (dezembro de 1594) e Parahyba
(janeiro de 1595).
Resolvemos então pinçar as
denúncias contra duas mulheres acusadas de bruxaria e feitiçaria: Domingas
Brandôa e Felícia Tourinha, por duas razões: ambas foram presas antes por
crimes comuns e foram denunciadas com base em testemunhos de companheiras de
cela.
Interessante que para o
contingente populacional de Olinda, havia bastantes pessoas presas,
independente da formação e classe social, como o advogado e licenciado André
Magno d’Oliveira, preso por homicídio, que denunciou em 21.11.1593 a apontada
como bruxa e feiticeira Brisida Lopes, “mulata” forra, que morava na Rua “Joam
Eanes” e trabalhava como ‘vendedeira’.
No caso de Domigas Brandôa, a
razão de sua prisão não foi esclarecida. Era casada com Foam Rollin. Esteve
presa com Paula Luis, esta acusada do homicídio do esposo. Ao dividir a cela
com Domingas Brandôa, teria testemunhado e participado de um ritual com uma
vassoura. A razão do ritual, segundo Brandôa, era para que ambas fossem soltas
no dia seguinte e que determinada pessoa fosse busca-las. De fato, Domingas
Brandôa foi solta no dia seguinte e a determinada pessoa foi buscá-la. Mas
Paula Luis continuou presa.
Foi quando Maria Escobar foi
visitar Paula Luis na cadeia e esta informou tudo que se passara na companhia
de Maria Escobar. Foi quando então Maria Escobar teve a ideia de ir até à casa
de Domingas Brandôa lhe pedir um “serviço” espiritual. Era Maria Escobar uma
mulher cristã-velha, portuguesa, 37 anos, que trabalhava como padeira e era
casada com um desaparecido na Índia. A solidão lhe pesava. Queria um novo
companheiro e foi pedir auxílio à Domingas Brandôa, que depois de lhe fazer
jurar segredo deu início ao procedimento.
Domingas Brandôa usava uma
vassoura e começou a evocar o nome de Barrabás e outros espíritos familiares na
presença de Maria Escobar. Foi quando em
23.11.1593 compareceu Maria Escobar à mesa do Santo Ofício e denunciou Domingas
Brandôa relatando o que esta fez em companhia de Paula Luis e o que ela mesma
tinha presenciado na casa da ‘bruxa”.
A denunciante Maria Escobar
deveria ser alcóolatra, pois o Inquisidor perguntou se estava bêbada no dia que
foi à casa de Domingas Brandôa no que respondeu “ella acostumada he a tomar-se
do vinho muitas vezes mas não se lembra se enttão o estava”.
A verdade é que Maria Escobar
teria se assustado com o ritual de Domingas Brandôa e mesmo alertada por esta
que deveria retornar à casa da suposta bruxa para concluir o feitiço, não o
fez. Talvez se Maria tivesse concluído o feitiço na casa de Domingas Brandôa
tivesse conseguido novo marido. Quem sabe? Como saber?
No próximo “capítulo” iremos
falar de Felícia Tourinha, as razões de sua prisão e o que fez para ser
apontada como bruxa pela ex-companheira de cela que a denunciou.
Laura Berquó