terça-feira, 8 de setembro de 2026

ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA, O JUDEU

 

 

Continuando as postagens sobre o grande dramaturgo morto pela Inquisição, em Lisboa, trazemos outra fonte sobre esse jovem sefardita, nascido no início do século XVII na cidade de São João de Meriti. O conteúdo é do Dicionário das Mulheres do Brasil, no verbete 'Lourença Coutinho", mãe de Antônio José da Silva. Existem diversos estudos na Pós-Graduação de História na UFF sobre mulheres cristãs-novas fluminenses perseguidas pela Inquisição no Rio de Janeiro. O caso de Lourença Coutinho é interessante, porque ela foi denunciada por uma escravizada ao se negar a conceder a alforria.

O dicionário pode ser acessado em: https://mulheresdasgerais.com.br/documents/publicacoes/ca4acd6ce03384de5d0eec19586ba3ea.pdf

A coordenação geral é de Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil.

Vejamos o que traz de informações o verbete sobre a mãe de Antônio José da Silva:

 

"Lourença Coutinho (1679-c.1757)
Condenada pela Inquisição por judaísmo.
Nasceu em 1679, na cidade do Rio de Janeiro, ɹlha de Baltasar Rodrigues Coutinho, senhor de engenho em São João do Meriti (RJ). Pertencia a uma família de cristãos- novos estabelecida no Rio de Janeiro desde meados do século XVII. Lourença casou-se com o advogado e dono de plantações de cana João Mendes da Silva, formado em Coimbra em 1691, com quem teve seus filhos Baltasar, André e Antônio José. O caçula, Antônio José da Silva, escreveu A guerra do alecrim e da manjerona, um clássico das literaturas barroca portuguesa e brasileira, e passou à história com a alcunha de “o Judeu”. Em 1712 Lourença foi presa pela Inquisição e levada a Lisboa para interrogatório. Seu marido deixou as propriedades e, com os ɹlhos do casal, acompanhou a mulher a
Portugal. Em Lisboa, Lourença foi submetida a torturas e assistiu ao Auto da Fé realizado no Largo do Rocio, no dia 9 de julho de 1713. Tinha, então, 47 anos. Durante o longo ritual, os condenados permaneciam perɹlados e expostos ao achincalhe de populares reunidos em volta do Largo. Eram também obrigados a manter aceso nas mãos um círio de mais de um metro. À medida que a cerimônia ia-se desenrolando, gotas
ardentes de cera iam queimando as mãos dos acusados. Em 1726 Lourença voltou a ser denunciada. Foi presa junto com seu ɹlho mais novo, Antônio José. Mãe e filho foram torturados e interrogados pelo Tribunal do Santo Ofício e submetidos ao Auto da Fé no dia 13 de outubro de 1729. A sentença foi publicada em 16 de outubro daquele ano. Antônio José foi libertado, mas mantido sob observação, enquanto sua mãe, Lourença, foi condenada a novo degredo por três anos na vila de Castro Marim, situada na região do Algarve, sul de Portugal. Libertado, Antônio José voltou a exercer a carreira de advogado e se casou com Leonor Maria Carvalho, de origem espanhola, que também já havia sofrido uma investigação do Santo Ofício. O casal teve uma filha chamada Lourença, em homenagem à avó. No dia 12 de outubro de 1737, Lourença, seus ɹlhos e sua nora Leonor foram novamente presos pelo Santo Ofício e submetidos a torturas. Lourença estava viúva e a
denúncia tinha sido feita por sua escrava Leonor Gomes. As acusações da escrava eram de que Lourença praticava o judaísmo, jejuava aos sábados e “no dia grande do mês de setembro”, passava o dia sem comer nem beber, ceando coisas que não eram carne. Esse terceiro processo sofrido por Lourença e seus filhos foi presidido pelo inquisidor Philippe Maciel. Depuseram, além de Leonor Gomes, mais quatro pessoas. A escrava chegou a fazer cinco depoimentos. A defesa de Lourença foi de que sua escrava não merecia crédito, era desobediente,
soberba e tratava mal seus netos, além de furtar para dar aos homens. O que a escrava queria mesmo era a liberdade. De fato, Leonor era escrava, havia 18 anos, da família de Lourença e queria ser alforriada ou, em última instância, vendida ou posta ao ganho. A liberdade de Leonor Gomes era a razão da guerra surda entre as duas. Nessa disputa, Leonor associou-se a outros serviçais tanto da família quanto das vizinhanças, para, através da perseguição implacável do Santo Ofício aos cristãos-novos, fazer sua vingança pessoal contra sua senhora.
Lourença foi novamente condenada, além de ter que pagar as custas do processo. Seus filhos também foram submetidos ao Auto de Fé. Antônio José foi condenado ao garrote e à fogueira; André também foi condenado, mas não se conhece a sentença. Leonor, a nora, e ela própria foram condenadas à pena de prisão perpétua em cárcere.
Fontes: Alberto Dines, Vínculos de fogo; Antônio Baião, Episódios dramáticos da Inquisição portuguesa; Francisco A. Varnhagen, Excertos de várias listas de condenados pela Inquisição de Lisboa; Lina Gorenstein Ferreira da Silva, Heréticos e impuros – a Inquisição e os cristãos-novos no Rio de Janeiro do século XVIII; Lúcio de Azevedo, História dos cristãos-novos portugueses; Meyer Kayserling, História dos judeus em Portugal; Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, processo nº 3458."

Sobre a segunda prisão pelo Santo Ofício, já em Portugal, é importante que se diga que o fato ocorreu, porque um cristão-novo paraibano, foi quem denunciou Antônio José da Silva e seus familiares, embora tenha sido por eles acolhido. Essa informação está na obra 'A Saga dos Cristãos-Novos na Paraiba" de Zilma Ferreira Pinto e será objeto da próxima postagem sobre Antônio José da Silva.

 Laura Berquó

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