terça-feira, 16 de junho de 2026
A DEUSA VOLÚPIA - PARTE 2
Antes de retomarmos o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em "A Agonia de Eros" e falar sobre a obra de Frédéric Gros "A Vergonha é um sentimento revolucionário", precisamos falar de Audre Lorde: feminista negra e interseccional norte-americana que nos legou justamente essa fala sobre o poder do erótico como agente de mudanças, no que diz respeito ao erotismo como pulsão de vida e a possibilidade de seu uso político e contestador. Audre Lorde na sua obra "Irmã Outsider" nos traz justamente um capítulo intitulado "Usos do Erótico: o Erótico Como Poder". Em seu capítulo, embora não cite esses arquétipos, é fácil identificar os arquétipos da Prostituta Sagrada e da Pombagira. A gente consegue identificar o arquétipo da Prostituta Sagrada nessa passagem: " Existem muitos tipos de poder, reconhecidos ou ignorados, utilizados ou não. O erótico é um recurso intrínseco a cada uma de nós, localizado em um plano profundamente feminino e espiritual, e que tem firmes raízes no poder de nossos sentimentos reprimidos e desconsiderados." (p.67). Aqui Audre Lorde nos traz um aspecto importante da psique que é tratado no arquétipo da Prostituta Sagrada que é a harmonização de aspectos inconsicentes do patriarcado (ânimus) e matriarcado (ânima). Como já citado algumas vezes em outras postagens, é necessária a leitura de "A Prostituta Sagrada. A Eterna Face do Feminino" de Nancy Qualls-Corbett. Mas também há outro aspecto importante no que Audre Lorde nos fala sobre sentimentos reprimidos e o plano feminino e espiritual, porque remete logicamente a Robert A. Johnson, psicanalista junguiano que diz em sua obra "He. A Chave do Entendimento da Psicologia Masculina" que a ânima, como toda mulher rejeitada, um dia irá se vingar. E acho essa passagem genial. Porque, psicologicamente, o preço é muito alto, em termos de prazer consigo mesmo, de leveza diante da vida, tanto para homens como mulheres que desprezam o seu aspecto feminino da psique. Audre Lorde prossegue informando que "contudo, o erótico oferece uma fonte de energia revigorante e provocativa para as mulheres que não temem sua revelação nem sucumbem à crença de que as sensações são o bastante." (p.68). Aqui identificamos o arquétipo da Pombagira. Mas a fala de Audre Lorde é sobretudo política e nesse sentido há duas passagens importantes: o erotismo como força propulsora de mudança e como alteridade. Assim, ela informa que "Para se perpetuar, toda a opressão precisa corromper ou deturpar as várias fontes de poder na cultura do oprimido que podem fornecer a energia necessária à mudança. No caso das mulheres, isso significou a supressão do erótico como fonte considerável de poder e de informação ao longo de nossas vidas." (p.67). Nesse mesmo diapasão segue Byung-Chul Han. No que tange à alteridade e erotismo, Audre Lorde nos fornece material para a seguinte reflexão: será que a competição própria do neoliberalismo permite a partilha e a comunhão? Audre Lorde diz que "O erótico para mim, opera de várias formas, e a primeira delas consiste em fornecer o poder que vem do compartilhar intimamente alguma atividade com outra pessoa. Compartilhar o gozo, seja ele físico, emocional, psiquico ou intelectual, cria uma ponte entre as pessoas que dele compartilham que pode ser a base a compreensão de grande parte daquilo que elas não têm em comum, e ameniza a ameaça de suas diferenças." (p.71). O erotismo é a possibilidade de uma experiência curativa para a alma e posterior partilha. Como força propulsora de vida, canalizada serve para mudanças sociais e contestação. Para finalizar, quero deixar essa passagem de Audre Lorde sobre como o erotismo pode operar mudança da nossa realidade material: "É claro, mulheres tão empoderadas são perigosas. Então somos ensinadas a dissociar a demanda erótica da maioria das áreas vitais das nossas vidas, com exceção do sexo. E a falta de preocupação com as bases e gratificações eróticas do nosso trabalho repercute em nossa insatisfação com muito do que fazemos. Por exemplo, com que frequência realmente amamos nosso trabalho, inclusive nos momentos mais difíceis?" (p.69).
Laura Berquó
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