domingo, 18 de janeiro de 2026

AS BRUXAS PERNAMBUCANAS NA VISITAÇÃO DO SANTO OFÍCIO DE 1593-1595 – PARTE 1

                                     Imagem tirada da Revista Galileu


 Com base na obra “A Saga dos Cristãos-Novos” na Paraíba”, de Zilma Ferreira Pinto, descobri que a primeira Visitação do Santo Ofício à Paraíba, que foi realizada no período de 06 de janeiro a 25 de janeiro de 1595, não encontrou “Bruxas” e “Feiticeiras” vivendo em terras tabajarinas, ou que tenham pelo menos sido denunciadas.  Das denúncias feitas na Paraíba, mais precisamente na sua única freguesia, tendo a antiga capital de Nossa Senhora das Neves como única cidade também, foram 16 denúncias por bigamia, blasfêmia e sodomia.

A autora Zilma Ferreira Pinto ainda registra que em Olinda foram denunciadas as seguintes mulheres acusadas de bruxaria e feitiçaria:

“Em Olinda foram denunciadas mulheres que as classificavam de bruxas e feiticeiras, por ocasião da visitação do Santo Ofício 1593-1595: Anna Jacome, que era torta de um olho. Brísida Lopes, que previa o futuro. Lianor Martins, a Saltadeira, e que viera do Reino degredada. Domingas Brandôa, que fazia cerimônias com uma vassoura para advinhar o futuro. Felícia Tourinha, que invocava o diabo.”

Segundo pode ser colhido da obra do Senhor Visitador do Santo Ofício (1593-1595), Heitor Mendonça de Furtado (Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil), as visitas ocorreram também nas capitanias de Itamaracá (dezembro de 1594) e Parahyba (janeiro de 1595).

Resolvemos então pinçar as denúncias contra duas mulheres acusadas de bruxaria e feitiçaria: Domingas Brandôa e Felícia Tourinha, por duas razões: ambas foram presas antes por crimes comuns e foram denunciadas com base em testemunhos de companheiras de cela.

Interessante que para o contingente populacional de Olinda, havia bastantes pessoas presas, independente da formação e classe social, como o advogado e licenciado André Magno d’Oliveira, preso por homicídio, que denunciou em 21.11.1593 a apontada como bruxa e feiticeira Brisida Lopes, “mulata” forra, que morava na Rua “Joam Eanes” e trabalhava como ‘vendedeira’.

No caso de Domigas Brandôa, a razão de sua prisão não foi esclarecida. Era casada com Foam Rollin. Esteve presa com Paula Luis, esta acusada do homicídio do esposo. Ao dividir a cela com Domingas Brandôa, teria testemunhado e participado de um ritual com uma vassoura. A razão do ritual, segundo Brandôa, era para que ambas fossem soltas no dia seguinte e que determinada pessoa fosse busca-las. De fato, Domingas Brandôa foi solta no dia seguinte e a determinada pessoa foi buscá-la. Mas Paula Luis continuou presa.

Foi quando Maria Escobar foi visitar Paula Luis na cadeia e esta informou tudo que se passara na companhia de Maria Escobar. Foi quando então Maria Escobar teve a ideia de ir até à casa de Domingas Brandôa lhe pedir um “serviço” espiritual. Era Maria Escobar uma mulher cristã-velha, portuguesa, 37 anos, que trabalhava como padeira e era casada com um desaparecido na Índia. A solidão lhe pesava. Queria um novo companheiro e foi pedir auxílio à Domingas Brandôa, que depois de lhe fazer jurar segredo deu início ao procedimento.

Domingas Brandôa usava uma vassoura e começou a evocar o nome de Barrabás e outros espíritos familiares na presença de Maria Escobar.  Foi quando em 23.11.1593 compareceu Maria Escobar à mesa do Santo Ofício e denunciou Domingas Brandôa relatando o que esta fez em companhia de Paula Luis e o que ela mesma tinha presenciado na casa da ‘bruxa”.

A denunciante Maria Escobar deveria ser alcóolatra, pois o Inquisidor perguntou se estava bêbada no dia que foi à casa de Domingas Brandôa no que respondeu “ella acostumada he a tomar-se do vinho muitas vezes mas não se lembra se enttão o estava”.

A verdade é que Maria Escobar teria se assustado com o ritual de Domingas Brandôa e mesmo alertada por esta que deveria retornar à casa da suposta bruxa para concluir o feitiço, não o fez. Talvez se Maria tivesse concluído o feitiço na casa de Domingas Brandôa tivesse conseguido novo marido. Quem sabe? Como saber?

No próximo “capítulo” iremos falar de Felícia Tourinha, as razões de sua prisão e o que fez para ser apontada como bruxa pela ex-companheira de cela que a denunciou.

 

Laura Berquó

 

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