quarta-feira, 19 de agosto de 2026
TERREIROS COMO TERRITÓRIOS DE AVANÇO CIVILIZACIONAL PARA MULHERES
Meu primeiro contato com religiões de matrizes africanas foi na infância, no Rio, mais precisamente com ensinamentos do Omolocô e umbanda. Já adulta, na Paraíba, aos 29 anos, fui suspensa como Ekede de Oxóssi e confirmada aos 32. O que posso dizer é que o Candomblé foi capaz de mudar minhas referências, sendo a convivência em espaços e com povos de terreiro capaz de promover em mim o que Amílcar Cabral nomeou como suicídio de classe, porque obrigatoriamente passei a enxergar e criticar a mulheridade branca burguesa que no seu narcisismo de raça /classe acredita realmente ter preferência e opiniões não pedidas sobre outras mulheres, principalmente, e direitos à preferência, deferência e reconhecimento de homens em detrimento de outras mulheres. O terreiro é um espaço de avanço civilizacional. No terreiro você aprende a conviver de forma natural com mulheres lésbicas/héreros/bis, trans/cis, pobres/com posses, com estudo/sem estudo, negras/brancas/indígenas, etc. O ganho na convivência com essa diversidade me fez me libertar de paradigmas e crenças limitantes de comportamento e a não dar muita importância à opinião alheia e de homens que podem ser tão conservadores sexualmente como as mulheres. Torço para que mulheres de terreiro ocupem cada vez mais espaços para poderem ensinar a outras mulheres que cada mulheridade e feminilidade podem se expressar livremente e serem respeitadas em seus espaços coletivos. Também reafirmar que a única forma do feminismo liberal branco dialogar com os feminismos negro, interseccional e decolonial é promovendo o suicídio de classe. Sem isso, não há como exercer alteridade e uma verdadeira sororidade.
Laura Berquó
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